A freira esmagada no Mosteiro

Corria o ano de 1885. Já há mais de meio século que as ordens religiosas tinham sido condenadas ao seu fim em Portugal, por decreto redigido pelo Ministro da Justiça, Joaquim António de Aguiar, publicado a 30 de Maio de 1834. Ao contrário das ordens religiosas masculinas, cuja ordem de extinção foi imediata, as ordens religiosas femininas continuariam a existir até ao óbito da sua última freira.

As obras projetadas para a reconstrução do Mosteiro de Santa Clara, iniciadas em 1778, nunca chegaram a terminar. A obra foi completa apenas na segunda metade da década de 1930, pela intervenção da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, com uma dimensão bastante menor do que a inicialmente prevista. Durante o século XIX, especialmente após o decreto de Joaquim António de Aguiar, os poderes das religiosas desvaneceram-se. Nas últimas décadas da sua existência, as freiras não tinham sequer fundos para as mais básicas obras de manutenção do Mosteiro, o que viria a originar um final dramático para uma das suas últimas inquilinas.

“N’um dos extremos do dormitório novo, ainda vi a cella onde se deu um dos mais tragicos acontecimentos do mosteiro.
Era sobre a madrugada de 2 de fevereiro de 1885. O vento soprava com violencia, e lá fóra bramia a tempestade. Ainda não despontára o dia e a velha abadessa, sentada na cama passava uma a uma as suas contas. Eis que repentinamente o vento, adquirindo a força de cyclone, derruba o frontão de cantaria que coroava uma das faces do pavilhão onde existia a cella e arremessa-o sobre o telhado, que arromba com o seu pezo de algumas centenas d’arrobas; e destruindo e perfurando os tectos que encontra na sua passage, vae cahir sobre a devota senhora, arrastando-a na sua queda vertiginosa, esmagada e convertida n’um acervo sangrento de roupa, carne e ossos!
Ao lado dormia a creada, outra velha, que benzendo-se ao estrondo, e correndo ao quarto proximo, nada vê, nada ouve, não pôde sequer gritar, soffocada como ficou pela poeira revolta que enche o espaço, pelo terror que lhe paralysa os movimentos.
Quando se conheceu toda a extensão da grande desgraça, nada mais houve a fazer do que tirar da ruína os restos triturados da pobre velhinha.
Horrível!”
T. Lino d’AssumpçãoAs Últimas Freiras (1894) p.27


Como veremos adiante, foi esta a parte do Mosteiro que desabou sobre a freira: fachada sul, do lado poente.

Tomaz Lino d’Assumpção oferece-nos uma descrição pormenorizada do trágico evento, com a intemperança típica da escrita da época, não nos contando apenas quem era a “velhinha” ou qual a parte do Mosteiro que ruiu. Diz-nos apenas que era uma “velha abadessa”, algo que Joaquim Pacheco Neves tentou aprofundar no seu livro “O Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde“.

“A última abadessa eleita foi D. Josefa Cândida do Amor Divino (Ferraz), que morreu muito santamente a 27 de Outubro de 1888 na sua cama de paralítica, segundo notícia dada pelo JORNAL DE VILLA DO CONDE, no nº 144, do mesmo dia, A que foi nomeada por Provisão do Arcebispo de Braga, D. Ana Augusta do Nascimento, morreu não menos santamente na sua cela no dia 21 de Maio de 1893. A freira que morreu esmagada pelas pedras do acrotério, se duma abadessa se tratava, é de supor que tenha sido uma das duas anteriores a D. Josefa Cândida e que foram D. Josefa Leocádia de Santa Clara Pires (1858-1870) e D. Guiomar José dos Desposórios (1870-1873). Apesar de procurar a notícia da sua morte nos jornais da época, nada encontrei. O Livro do Registo de Óbitos não sei onde pára. Embora as fontes de pesquisa não estejam esgotadas, aqui deixo a minha dúvida.”
Joaquim Pacheco NevesO Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde (1982) p.224

Uns anos depois, a curiosidade de Pacheco Neves deu frutos, encontrando finalmente a resposta com a ajuda de Barbosa Marques, jornalista e investigador nascido em Gaia mas desde cedo radicado em Vila do Conde.

“Lembro-me de que quando estava a escrever o livro sobre o Mosteiro de Santa Clara, por mais que procurasse não consegui saber o nome da freira que tinha sido esmagada debaixo das pedras que cairam da platibanda do Mosteiro na madrugada de 2 de Fevereiro de 1885. Procurei no Libro de Registo de Óbitos do nosso Registo Civil, tentei saber se não estaria em Braga, folheei de novo o Lino d’Assumpção, percorri os jornais da época e em parte nenhuma encontrei quem mo dissesse. A partir do autor de AS ÚLTIMAS FREIRAS pus as duas hipóteses que não podiam falhar. Mas qual das duas seria? Que abadessa seria aquela que Lino d’Assumpção dizia ter morrido esmagada pelas pedras, se as duas últimas tinham morrido santamente nas suas camas? Tinha de ser uma das anteriores. Só depois do livro O MOSTEIRO DE SANTA CLARA DE VILA DO CONDE ter sido publicado é que vim a saber, pela boca do Barbosa Marques, quem ela tinha sido. Tratava-se de uma das duas por mim nomeadas – a D. Guiomar. E deu-me a cópia do documento que nela falava. Era um ofício dirigido pelo Administrador do Concelho ao Governador Civil do Porto a relatar-lhe os estragos sofridos pela vila durante o tufão ocorrido na madrugada do dia 2 de Fevereiro de 1885. Dele transcrevo a seguinte passagem: «…correu sobre esta vila um tufão ou cyclone na direccção de poente a nascente, que arrancou beiradas de telhados, guardas da ponte, destruiu e torceu lampeões e na fachada principal que olha para o sul do Convento de Santa Clara, junto ao canto do poente, arrancou parte da platibanda e um grando escudo que estava inserido nestas e arremessou-a sobre o telhado esta grande massa de pedra, arroumbou um pedaço de forro, e, abrindo passagem pelo tecto e soalho d’uma cella do terceiro andar, foi cair na correspondente do segundo andar, onde esmagou ahi a freira, D. Guiomar, que estava entrevada, matando-a instantaneamente». O ofício tinha a assinatura de António Alexº Perª d’Andrade.”
Joaquim Pacheco Neves
Caderno da Cultura do Jornal de Vila do Conde nº 318 – 9 de Janeiro de 1986

Podem-se verificar as diferenças neste lado da fachada sul do Mosteiro nas gravuras e postais disponíveis na nossa loja online. As gravuras, anteriores a este acontecimento, mostram este canto do Mosteiro intacto, enquanto que nos postais editados até à intervenção da DGEMN, nota-se a falta dos “vasos” ou fogaréus que tombaram com o tufão, tal como o brasão, existindo apenas o outro idêntico, localizado simetricamente no lado nascente da fachada sul. Note-se que após este evento que vitimou uma das últimas abadessas, outros destes fogaréus terão também desabado, verificando-se isso na comparação entre os postais do início do século XX e outros do início da década de 1930. Depois das controversas obras realizadas entre 1936-1940, o Mosteiro ficou com a imagem que perdura até aos nossos dias.

Villa do Conde - gravura

Villa do Conde - Convento de Santa Clara - gravura

Villa do Conde - Um aspecto do Rio Ave - postal

Fachada nascente do Convento - postal

Ponte Metálica sobre o Rio Ave e Fachada do Convento de Santa Clara - postal

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