Azenhas e Açude

Transcrição de apoio a: Ontem e Hoje: As Azenhas da Vila

A gravura apresentada no jornal (e seguidamente descrita) é de muito baixa qualidade. A imagem exposta aqui é exactamente a mesma, mas reproduzida em postal (disponível na loja) em data anterior ao artigo (1904, cliché de Joaquim Adriano e edição de Amaral Corrêa).

A nossa gravura
Azenhas e Açude

Apresenta da esquerda para a direita: um aspecto do aqueduto, obra geralmente atribuída ao engenheiro italiano Fillipe Terso, ou Tersio, – o angulo sul nascente do magestoso convento de Santa Clara, hoje Casa de Correcção, – a fabrica de moagens, – as azenhas e o açude.
Do aqueduto dirá em um dos numeros seguintes deste jornal pessoa bem mais competente do que nós, – e da Casa de Correcção, já este semanario publicou um excelente artigo, devido à penna d’um dos seus mais distinctos collaboradores.
Cumpre-nos, pois, por agora descrever-mos as azenhas e o seu açude.
Aquellas edificadas sobre o leito do rio, a poucos metros de distancia da aresta do passeio da antiga rampa, que pelo lado do poente dava acesso à ponte de pedra, que uma enchente do Ave fez desabar, constituem uma importante propriedade industrial de moagens de cereaes. Constam de tres casas de azenhas com doze rodas e treze mós tendo como annexo, alem de outros, uma casa separada, na qual se acha installada a fabrica de moagens movida a vapor, a que só moe durante a estiagem quando a agua do rio é insufficiente para pôr em movimento todas as rodas das azenhas.
A edificação tanto d’estas como da margem esquerda, não representadas na gravura, data de mais de quatro centos annos. Pertenceram as de que tratamos ao Real Mosteiro de Santa Clara d’esta villa, e foram ha mais de quarenta annos arrematadas, em virtude das leis de desamortização, pelo fallecido dr. José Joaquim Figueiredo de Faria, marido da actual possuidora a ex.ma D. Joaquina de Castro Faria, senhora digna de todos os respeitos pelas suas virtudes.
As azenhas da margem esquerda pertenceram À illustre Casa de Fervença, do concelho de Barcellos, e foram ha poucos annos adquiridas, por compras pela mesma ex.ma sr.a D. Joaquina de Castro Faria.
Entre estas e aquellas azenhas prolonga-se, em diagonal o açude, a toda a largura do rio, o qual fornece a agua para a laboração das azenhas, e d’elle resulta a queda d’agia representada na gravura, queda d’agua, que é d’um bello aspecto quer a observemos a distancia, da ponte metalica ou do Recreio, quer a vejamos mais proxima, de qualquer das margens do rio a jusante d’ella.
É este açude aquelle que limita a parte navegável do rio a contar da sua foz, privando bem como o de Retorta que o Ave seja navegavel, pelo menos até ao aprasivel logar da Espinheira, o que constituiria para nós e para a nossa colonia balnear mais um lindo passeio de barco, no qual se poderiam bem apreciar todas as bellezas das margens do rio desde a sua foz até ao referido local da Espinheira.
Não quer isto dizer que as margens do Ave d’ahi para cima não sejam cheias de belezas e encantos. São-o, mas os açudes guardam muito menores espaços de uns a outros, sendo porisso pouco praticavel o vel-as e admiral-as, a não ser a breves trechos, só das proprias margens.
De cima do açude de Retorta até ao açude da Espinheira é facil e aprasivel, principalmente na estação calmosa, um passeio em barco, e a quem ainda não deu esse passeio não será fácil imaginar as bellezas da margens do Ave, alternadas de paisagens muito variadas e algumas d’uma belleza indiscriptível.
Estamos convencidos de que, quanto a margens, o nosso Ave, pouco ou nada tem a invejar aos celebrados Mondego e Lima.”
M. Nogueira
Commercio de Villa do Conde nº7 – 6/Jan/1907

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