São Pedro de Vale do Conde (Marmelos – Mirandela)

Sérgio Paiva – 31/Dez/19

A Vila do Conde da foz do Ave não é a única localidade com este nome, quer em Portugal quer fora do país, tal como já referi na análise da toponímia, consubstanciando com as primeiras localidades já partilhadas nesta secção “As Outras Vilas de Condes“.

Existiu em tempos uma terra, perto de Mirandela, denominada Vila do Conde. Por ser homónima da “nossa” Vila do Conde, estas duas localidades já foram confundidas em variadíssimas publicações1, devido à existência de um foral atribuído por D. Dinis à Vila do Conde de Mirandela, erradamente listado no índice de forais de Franklin2 como sendo da Vila do Conde princesa do Ave. A partir daí, esta obra extremamente referenciada fez perdurar esta incorreção por muitas décadas, encontrando-se referências ao suposto foral dionisino da “nossa” Vila do Conde quase até aos dias de hoje. Não sendo certa a inexistência de um foral precursor do manuelino, antes pelo contrário, mas disso poderei falar numa outra altura, o certo é que este foral é de uma Vila do Conde situada perto de Mirandela.

Carta de foro de Villa de Conde
Arquivo Nacional da Torre do Tombo – Livro 2 da Chancelaria de D. Dinis, folha 119v

A “Carta de foro de Villa de Conde” acima reproduzida, redigida aos “dez dias de Fevereiro (…) da Era de mil trezentos e trinta e quatro anos” (1334 da Era de César, 10 de Fevereiro de 1296 da Era de Cristo) refere explicitamente, nas primeiras linhas, Mirandela, o rio Tuela e várias outras aldeias próximas. Confirmando a posição geográfica desta Vila do Conde, pode-se ler a anotação, bem mais recente, no início do texto: “isto é em Trás-os-Montes junto ao rio Tuela e não longe de Mirandela”.

Atentando às aldeias referidas, pode-se verificar que todas se localizam a oeste, sudoeste e sul de Mirandela. O Tuela une-se com o Rabaçal a cerca de 4 kms a norte para formar o Tua, que segue para sul de Mirandela, sendo portanto este o rio a que o foral se refere.

Destas aldeias, podem-se identificar várias nos dias de hoje: Suçães (Sugaaes), Barcel (Barçol), Vale dos Avinhados – Avidagos? (ual dos avinhados), Lamas de Orelhão (Lamas Dorelham)… Construindo um polígono com os vértices nestas aldeias e limitado a nascente pelo Tua (entre Mirandela e Barcel), é de notar um lugar denominado São Pedro de Vale do Conde, bem perto do centro desse polígono.

Localização de São Pedro de Vale do Conde, perto do centro do polígono acima referido

São Pedro de Vale do Conde é um lugar da recém-extinta freguesia de Marmelos, concelho de Mirandela. Com maior dimensão do que as aldeias próximas, é aqui que se localiza a Junta de Freguesia de Barcel, Marmelos e Valverde da Gestosa.

Na parte sul de São Pedro de Vale do Conde situa-se a Capela de Santa Catarina, no topo de uma pequena elevação. Neste local chegaram a ser identificadas linhas de muralha, há cerca de um século, por Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal e notável arqueólogo e historiador transmontano. Ainda hoje se podem encontrar fragmentos cerâmicos que podem sustentar uma teoria da romanização3 do povoamento que teria origem na Idade do Ferro4.

Capela de Santa Catarina – São Pedro de Vale do Conde – Marmelos – Mirandela

Neste local de intensa atividade agrícola, é natural que as muralhas tenham sido desmanteladas ao longo dos séculos, em especial no último, já após a identificação das suas linhas pelo Abade de Baçal, para darem lugar aos terraços para cultivo e acessos à Capela de Santa Catarina. Será que estes vestígios de muralha serão do “muro” referido no foral de D. Dinis?5.

Localização:

No centro da aldeia localiza-se a Capela de São Pedro, que dá nome ao local, e a Quinta Vale do Conde, onde se produz azeite de destacada qualidade.

Igreja de São Pedro e Quinta Vale do Conde – via Quinta Vale do Conde (Facebook)

Origem do topónimo: não sendo certa a identificação de São Pedro de Vale do Conde como a povoação denominada “Villa de Conde” que obteve a carta de foro de D. Dinis, será uma forte hipótese que, pela precisão geográfica no centro dos termos mencionados no foral, semelhanças entre o topónimo do século XIII e atual, e existência reportada de vestígios de fortificação, não andará longe da verdade. Ainda assim, e também pela falta de documentação acerca deste pequeno lugar, torna-se irrelevante teorizar a sua origem.

  1. Como por exemplo Baptista de Lima – História da Vila do Conde (1941), Bertino Daciano e Eugénio da Cunhe e Freitas – Subsídios para uma Monografia de Vila do Conde (1953), José Marques – A Administração Municipal de Vila do Conde em 1466 (1983), entre vários outros outros
  2. Francisco Nunes Franklin – Memoria para servir de Indice dos Foraes das Terras do Reino de Portugal e seus Dominios (1816) p.153
  3. Pedro C. Carvalho, Luís Filipe Coutinho Gomes e João Nuno Marques – Estudo Histórico e Etnológico do Vale do Tua (Concelhos de Alijó, Carrazeda de Ansiães, Mirandela, Murça e Vila Flor) Vol.I (2017) p.280
  4. Portal do Arqueólogo – Santa Catarina – Sítio 2071
  5. Pedro C. Carvalho, Luís Filipe Coutinho Gomes e João Nuno Marques – Estudo Histórico e Etnológico do Vale do Tua (Concelhos de Alijó, Carrazeda de Ansiães, Mirandela, Murça e Vila Flor) Vol.II (2017) p.77

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