Toponímia de Vila do Conde (parte 1)

Sérgio Paiva – 08/Jul/19

A toponímia de Vila do Conde, ou a razão pela qual esta terra tem este nome, é um caso de estudo aprofundado relativamente recente. Até há cerca de um século, ninguém punha em causa o suposto facto, ainda que sem fundamento documental, de que a “Vila”, em alguma altura mais ou menos precisa, teria sido posse de um obscuro conde medieval dos inícios do século XII, de seu nome Mendo Pais Rufino12

Tal suposição é fácil de refutar. Mais de dois séculos antes, já Flamula Pelagius, na sua escritura de venda destas terras ao Mosteiro de Guimarães, a apelidava de “Villa de Comite”.

Então… Porquê Vila do Conde? Será que houve algum conde que deu nome à terra ou terá sido outra razão?

Vamos começar pela parte mais fácil de analisar, a qual gera pouca ou nenhuma controvérsia: a palavra Vila.

A palavra Vila é rastreável até à época dos romanos. Nesses tempos, uma villa, cujo duplo “LL” na língua portuguesa apenas se transformou em “L” aquando da reforma ortográfica de 19113, era uma habitação, usualmente casa de campo e pertencente a alguém da alta sociedade. Após a queda da República Romana, e ao longo da Antiguidade Tardia, o significado de villa transformou-se, a pouco e pouco. Seria então não só uma casa, mas também uma zona de cultivo de maior área, mais ou menos fortificada. Durante a Idade Média, as villas voltariam a ser associadas a gentes de altas classes sociais. Consequentemente, é concebível que, ao longo dos tempos, o castro celta que deu origem à nossa terra tomasse a designação de villa4.

A origem da palavra “Conde”, por sua vez, é mais difícil de encontrar e menos consensual, É impossível, nos dias de hoje, comprovar de forma irrefutável a sua génese. Vamos então fazer uma síntese das várias hipóteses apresentadas ao longo dos tempos. Tal como dissemos, o senso comum apontaria a que a Vila, a dada altura, teria sido posse de um conde. Esta é uma das quatro hipóteses que iremos desenvolver.

1 – A Vila ter sido posse de um Conde

Comecemos por analisar, dentro do possível, a ascendência da supracitada Flamula, que em 953 era dona das terras que originariam a actual cidade de Vila do Conde. Caso tenha existido o tal “conde batismal” da “Villa de Comite”, é provável é que seja um antepassado não muito longínquo de Flamula, do qual esta terá herdado as terras.

O grande problema existente, é o de não haver muitas certezas na construção de uma árvore genealógica da família de Flamula. O único e singelo indício que a escritura de Flamula nos deixa, é o de que esta seria filha de Pelagio (ou Paio) e Iberia, sem referir os seus apelidos patronímicos. O único ponto positivo do pouco que sabemos até agora, é que tais nomes apesar de não serem raros também não são dos mais comuns. Encontrá-los nesta disposição de pais e filha, quase nos assegura que sejam estes mesmos, outrora donos da nossa Vila do Conde.

Emilio Saez Sanchez apresenta-nos com muita segurança os descendentes do Conde de Tuy e Deza, Afonso Betote5. Este conde teria uma bisneta chamada Flamula, filha de Iberia Gonçalves e Pelagio Tedones (ou Tedoniz/Tetoniz), tendo ainda uma irmã chamada Velasquita. Flamula Pelagius e Velasquita Pelagius assinam um codicilo de Mumadona Dias6, sua tia por afinidade (casada com o conde Hermenegildo, irmão de Iberia), no ano de 968. A condessa Mumadona foi a fundadora do Mosteiro de Guimarães, ao qual Flamula cedeu a “Villa de Comite” em 953 e para onde terá ido viver juntamente com a sua irmã.

Em Historia de la Santa A. M. Iglesia de Santiago de Compostela7 encontra-se uma sentença de D. Bermudo II, rei de Leão e Galiza, acerca da posse dos servos cujos pais serviam em distintos senhorios. O documento refere uma família com exatamente estes membros: pai Pelagio Tedones, mãe Iberia, filha Flamula8. Não sendo certo que sejam os mesmos ilustres proprietários de Vila do Conde, já que o documento não refere territórios, é possível que o sejam, devido a alguma proximidade geográfica e temporal entre a escritura de Flamula e esta sentença9.

Identificados os apelidos dos pais de Flamula, Tedones e Gonçalves, e o ramo materno dos ascendentes de Flamula, sendo o conde Afonso Betote seu bisavô, este surge como a primeira hipótese de resolução do caso que aqui exploramos.

1.1 – Afonso Betote, conde de Tui e de Deza, enviado pelo rei Ordonho I das Astúrias para presurar terras na Galiza e Minho10.

“Vila do Conde e várias localidades vizinhas foram presuradas pelo conde Betote, sendo mesmo este o conde a que se refere o nome da actual. (…) Do conde Betote, ficou aquela Villa de Comite, segundo julgo, a seu filho referido, Tédon Betótiz, de quem a herdou o seu, conde Paio Tedóniz; e deste passou a sua filha Flâmula Pais (…)”
Armando de Almeida Fernandes
Adosinda e Ximeno. Revista de Guimarães, 91 Jan.-Dez (1981) p.53

“O topónimo Vila do Conde tem, portanto, origem no Século X (…). É provável que o conde a que ele alude fosse Afonso Betotes, o presor de Tui e do Alto Minho, de quem Flamula Pais era descendente.”
Mário Jorge Barroca
Portvgalia, Nova Série, vol. 38 (2017) p.128

Almeida Fernandes, um dos mais conceituados medievalistas portugueses, sugere que Pelagio Tedones, pai de Flamula, seja filho de Tedon Betotes. Iremos tentar analisar se isto será correcto e apresentar outros condes que poderão ter dado o nome à nossa Vila na próxima parte: Toponímia de Vila do Conde – parte 2

Toponímia de Vila do Conde (parte 2)
Toponímia de Vila do Conde (parte 3)
Toponímia de Vila do Conde (parte 4)
Toponímia de Vila do Conde (parte 5)

  1. Possivelmente um conde de Azevedo, do século XII, sem haver muitas certezas se seria a esta pessoa a que se referiam os autores que lhe atribuem a posse de Vila do Conde e a origem do topónimo. As grafias do seu nome variam muito: Mendo/Mem/Meem, Pais/Paes/Paez, Rufino/Roufino/Rofinho/Bofinho…
  2. Alguns autores que apontam o Conde D. Mendo como origem da toponímia de Vila do Conde
  3. Tal como em qualquer reforma ortográfica, a adaptação às novas grafias não é fácil, daí que se note Vila do Conde escrito com dois “LL” durante muitos mais anos.
  4. Para um estudo mais detalhado, propomos a leitura da obra do historiador Alberto Sampaio: “Estudos Históricos e Económicos Vol. I – As Vilas do norte de Portugal”.
  5. Notas al episcopologio minduniense del siglo X (1946)
  6. Mário Cardoso – Revista de Guimarães, 77 (3-4) Jun.-Dez. 1967, p.298
  7. Antonio López Ferreiro – Historia de la Santa A. M. Iglesia de Santiago de Compostela (1899) apendices p.197
  8. pelagius nomine, tetoni filius, atque uxor eius iberia, et procreauerunt liberos ex quibus unam habuerunt filiam nomine flamulam que successit in bonis parentum suorum
  9. Este documento é datado da era de MXXXVII (de César), ou seja, 999 d.C., 46 anos depois da escritura de Flamula. A distância temporal pode ser entendida como demasiada, já que neste tempo poderiam existir pelo menos duas gerações subsequentes a Flamula. Dito isto, A. de Almeida Fernandes chegou a afirmar que a data da escritura não seria a correcta (Revista de Guimarães, 81 (1-2) Jan.-Jun. 1971, p.81). Pela suficiente compatibilidade de nomes, datas e localizações, podendo até as datas não ser correctas, assuma-se que estas três pessoas referidas em ambos os documentos sejam as mesmas.
  10. Historify – Historia de España

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