Garraiada no Castelo

A década de 1920 foi uma das épocas mais áureas de Vila do Conde, com o Casino, Teatro e Hotel a funcionarem a todo o vapor no centro do bairro balnear.

A nata da sociedade enchia os dias e noites destes espaços com glamour, promovendo ainda diversas atividades para ocuparem o seu tempo, sendo a época balnear destinada muito mais à confraternização e ostentação do que propriamente ao descanso.

Uma destas atividades, curiosamente organizada pelas senhoras da alta sociedade, foi uma garraiada no Forte de São João Batista, no ano de 1925.

TOURADA
Vai grande entusiasmo pela garraiada d’amanhã, no Castelo d’esta vila, para tal fim adoptado em ampla praça, pela Comissão de Turismo com todas as comodidades.
A Comissão organisadora, é composta pelas mais distintas damas da nossa colónia balnear, sendo a corrida dirigida pelo exmo. se. D. José Serpa Pimentel.
Os cavaleiros são, além de distintos sportman, exmo. sr. Mário Moreira, os exmos. srs. Afonso de Menezes e Lemos e Damião Brandão, e os bandarilheiros os exmos. sr. Antonio Tovar de Lemos, R. R., V. B. Raul Pinto Machado, Alfredo Ferreira e Domingos Cruz, coadjuvados pelo distintissimo bandarilheiro amador, exmo. sr. Alberto de Gama Lobo.
O grupo de Forcados, campinos, Carecas e Papagaios é composto por cavalheiros d’esta vila e da nossa colónia balnear, havendo uma surpreza pelo conhecido e audacioso sportman Pedro Henrique Garcia Malo (maputo).
Abrilhanta esta festa a Banda de Bombeiros Voluntarios d’esta vila.”
A República nº 721 – 20 de Setembro de 1925

Garraiada no Castelo - bilhete
“Garraiada no Castelo” – bilhete, disponível na loja

Garraiada no Castelo - panfleto
“Garraiada no Castelo” – panfleto, disponível na loja

Infelizmente, não foi possível encontrar qualquer publicação periódica local posterior, pela inexistência na Biblioteca Municipal do número 598 do jornal “O Democrático” e do adiamento por uma semana da publicação do número 722 do jornal “A República” que, saindo já em Outubro, não noticia este evento.
Assim sendo, e procurando por outros periódicos a nível nacional, encontra-se esta “pérola” no Diário de Lisboa, a qual descreve pormenorizadamente a garraiada do fim do Verão.

Veraneios elegantes
VILA DO CONDE, 23 – Meu caro Carlos. Apesar do dia de ontem se apresentar ameaçando chuva sempre se realizou na improvisada praça de touros do Castelo, a anunciada garraiada por amadores, levada a efeito por uma comissão de senhoras da nossa primeira sociedade aqui veraneando, da qual faziam parte as seguintes: D. Adelaide da Cunha Reis, Condessa de Castro e Sola, Condessa de Vilas Boas, D. Constança Avides Espírito Santo, D. Isabel Cardoso Sarmento Pimentel, D. Joana São Mamede Teixeira, D. Josefina Pinto dos Santos Menéres, D. Margarida de Melo Cardoso de Menezes (Margaride), D. Maria Augusta de Carvalho Morais, D. Maria do Carmo Belmarço Pereira de Carvalho, D. Maria de Mendia de Serpa e D. Maria do Pilar Pimentel Sobral Cid.
Eram perto das cinco horas da tarde quando se deu começo à corrida, saindo o primeiro garraio, que era um bicho muito sabido, para o distinto cavaleiro amador sr. Mário Moreira, que nada fez do animal, tendo de recolher o cavaleiro que por todas as formas tentou fazer alguma coisa que se visse.
Este garraio foi bandarilhado com toda a perícia pelo brilhante bandarilheiro amador sr. Alberto Gama Lobo (Veiroa), que com grande trabalho conseguiu colocar alguns pares; quando se preparavam para a largada do segundo, começou a chover, tendo-se lidado o segundo sempre debaixo de chuva, sendo bandarilhado pelo distincto amador sr. António Tovar de Lemos, que mostrou mais uma vez a sua grande queda para a arte de Montes e pegado pelo cabo de forcados sr. Carlos de Sousa Rego, que fez uma óptima pega de cara.
Quando se dava o sinal para sair o terceiro apertou a chuva com tal intensidade, que teve de se interromper a corrida, que prosseguiu hoje de tarde, visto o dia se apresentar lindíssimo, sendo toureados mais dois garraios pelos mesmos amadores srs. Gama Lobo e Tovar de Lemos, porque os restantes que faziam parte do cartel, não apareceram, assim como os forcados, tendo o segundo sido pegado pelo conhecido pegador José Russo.
Na corrida de ontem, para além da chuva, houve um pequeno desastre, felizmente sem consequência, mas que podia ter sido fatal, e que foi a queda de uma das bancadas de sombra, tendo apenas a sr.ª D. Maria de Lourdes Magalhães de Barros Teixeira ficado ferida em um pé.
Ontem à noite realisou-se o anunciado «jantar à americana» no Palace Hotel, que foi concorridíssimo, vendo-se todas as mesas ocupadas por tudo que mais distinto conta a sociedade elegante aqui veraneando, o qual decorreu no meio da maior animação e alegria, terminando perto das duas horas e meia da madrugada, vendo-se sempre no meio da sala grande número de pares, dançando ao som do exímio quarteto «jazz-band» Fabre. – D. NUNO”
Diário de Lisboa nº 1372 – 28 de Setembro de 1925

Fica assim perpetuada a descrição da única tourada realizada do Forte de São João Baptista. Outras se seguiriam, mais regularmente, numa pequena praça localizada no nordeste do cruzamento entre a Avenida Bento de Freitas e a Avenida Júlio Graça, a norte do Casino (Centro da Juventude) e a nascente do Palace Hotel.

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