A Ponte de Pedra

Sérgio Paiva – 26/Ago/19

A “Ponte de Pedra” é o nome comum para fazer referência àquela que foi a presumível primeira ponte não temporária que ligou Vila do Conde a Azurara, sendo também conhecida por Ponte de Nossa Senhora das Neves (ou Ponte da Senhora das Neves ou, mais sucintamente, Ponte das Neves) e cuja construção se iniciou em 1793.

Durante séculos a ligação entre estas duas localidades era estabelecida por meio de uma barca, primeiramente propriedade da Câmara e, posteriormente, do Mosteiro de Santa Clara, ao qual os seus passageiros teriam de pagar uma taxa para a sua utilização.

Antes da construção desta ponte, há uma referência à existência de uma outra ponte no século XIII, numa carta de doação de duas azenhas ao lado da ponte do rio Ave, entre Azurara e Vila do Conde, a André Martins e sua esposa, Maria Lourenço. O documento é datado de 12 de Junho de 1270.

“(…) do et concedo uobis ANDREE MARTINI et uxori uestre Marie Laurencij et omnibus successoribus uestris duas sesseguas de azenijs prope pontem de riuolo de Aue, inter Zuraram et Villam de Comde.”
Cartulário do Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde (1986) p.41
Edição Fac-Similada de Carlos Tarouca – Revista de Arqueologia e História, 8ª série – Volume IV (1947)
Associação Comercial e Industrial de Vila do Conde

Daqui se entende que existiria uma ponte entre Vila do Conde e Azurara, antes da construção do Mosteiro de Santa Clara e séculos antes da existência da barca, da qual as mais antigas referências datam de 14661, em posse da Câmara, e 16332, na posse do Mosteiro. Sendo esta a única referência conhecida a esta ponte medieval, poder-se-á interpretar isto de várias maneiras. Por um lado, D. Afonso III foi o rei que moveu o centro político para o sul, transferindo a capital do reino de Coimbra para Lisboa, sendo ainda o primeiro a intitular-se Rei de Portugal e do Algarve, podendo-se deduzir que não teria tanta afinidade e conhecimento das terras mais a norte, há muito tempo seguras no reino. Poderia assim confundir-se na localização da dita ponte, já que existiriam outras no rio Ave bem mais a montante. Já existiria, por exemplo, a ponte D. Zameiro, podendo o rei referir-se a azenhas adjacentes a essa ponte. Por outro lado, é algo dúbio que o próprio rei “inventasse” uma ponte entre Vila do Conde e Azurara num documento oficial de doação régia. De uma forma ou de outra, é esta a única referência que se conhece da possível existência de uma ponte entre Vila do Conde e Azurara, antes da construção da ponte que hoje vamos tratar.

Pelo menos desde 1538 que se propunha a construção de uma ponte. O rei D. João III acedeu ao pedido popular, sendo o povo incumbido de contribuir durante dois anos como retribuição da construção da dita ponte3. Não sendo levado esse acordo a efeito, com o passar dos anos vários outros acordos foram tentados, com destaque para o que levou à autorização de construção dada por D. Filipe III em 30 de Novembro de 16404. Como se sabe, apenas dois dias depois a dinastia filipina chegou ao fim, tendo a construção da ponte ficado novamente adiada.

Todas as tentativas foram sempre veementemente contestadas pelas freiras do Mosteiro. Como já dissemos, por esta altura a barca de passagem era posse do Mosteiro, obtendo as freiras um bom rendimento pelo seu arrendamento. A barca tornar-se-ia obsoleta com a construção da ponte, o que criaria um enorme revés às finanças do Mosteiro, algo sempre relembrado nas comunicações com os governantes nesta época. Para além dos motivos financeiros, outros argumentos são apresentados pelas freiras, um dos quais pela sua curiosidade transcrevemos em seguida5:

“(…) e fazendose a ponte pertendida no lugar que detreminarão, não pode deixar de Devasar ao mesmo Mosteiro que se acha em sima de hú monte sobranseiro ao rio sem serqua pera a dita parte e na Rais do dito monte pretendem os Suplicantes firmar a dita ponte que precizamente se hade Levantar sobre o mesmo Rio e ficar perto das ginellas do Dormitorio daquella parte do Rio presizando as Religiozas as tapar digo (sic) A atapar as ginellas e privarse da vista do Rio ou não as tapando a exporse as vistas osiozas dos pasageiros e asistentes com Detrimento dos creditos de suas honestidades, e Religioza observansia.”
Papeis lansados em Nota a Requerimento das Religiosas de Santa Clara desta Villa de Conde
Arquivo Distrital do Porto – Secção Notarial de Vila do Conde – n.12 – fls. 95 v. 8ª série

Finalmente, em 1792, a rainha D. Maria I nomeou Francisco de Almada e Mendonça, corregedor da comarca do Porto e responsável por um vasto leque de obras públicas neste período, para dirigir a construção de uma ponte de pedra sobre o Ave, sendo por este incumbido o mestre pedreiro Francisco Tomás da Mota para a sua execução6, logo após o seu contributo para a edificação da Ponte de São Gonçalo, em Amarante. O arquiteto foi José Francisco de Paiva7. A primeira pedra da Ponte da Senhora das Neves foi lançada a 15 de Agosto de 1793 pelas mãos do já referido Francisco de Almada e Mendonça, com enorme pompa e circunstância, no meio de uma festa de quatro dias, de 14 a 17, promovida pelo mesmo. Seria ele nessa época proprietário de uma habitação na vila de Azurara, para mais facilmente acompanhar a construção nestes estaleiros de embarcações que seriam postas ao serviço do reino8.

A ponte era necessária não só aos habitantes de Vila do Conde e Azurara, mas a todos aqueles que viajando próximo ao litoral, em ambos os sentidos, necessitassem de atravessar o Ave. Daí que para a sua construção tenha sido criado um imposto de um real por cada quartilho de vinho vendido nas tavernas das cinquenta freguesias limítrofes a Vila do Conde e Póvoa de Varzim9.

Seguidamente transcrevemos na íntegra um opúsculo da época que, pelo nível de detalhe, nos oferece nitidamente a importância da construção da ponte e a opulência da festa associada ao início da construção da mesma.

“No dia 15 d’Agosto o Ill.mo Francisco d’Almada e Mendonça, Moço Fidalgo com exercício da Casa de S. Magestade, e seu Desembargador da Relação, e Casa do Porto, Corregedor, e Provedor da Commarca, para dar princípio à Ponte, que S. Magestade a rógos dos seus Vassallos mandou construir sobre o rio Ave, defronte de Villa do Conde e d’Azurara, facilitando a communicação daquelles Povos, e dos outros que transitãocom tanta utilidade pública, mandou cantar huma Missa pelos mais hábeis Musicos na Igreja Matriz da dita Villa d’Azurara, que se achava magnificamente ornada. Acabada ella fez conduzir sobre um andor com a Imagem da N. S. das Neves, a primeira pedra com a Inscripção gravada em uma chapa de prata, e na solemne procissão, cantando os Padres Capuchos, e os Franciscanos com os Clerigos Seculares, que concorrêrão, louvores a Deos N. S., e à Santíssima Virgem, pedindo-lhe que aquella obra que hia principiar-se debaixo do seu Santo Nome, prosseguisse, e prosperasse com as bençãos do Ceo; tudo ao som de diversos instrumentos, fechando a Procissão huma escolta Militar, compsta dos soldados da guarnição da Fortaleza de Villa do Conde, e commandada por hum Alferes. Logo que se chegou ao sítio destinado, aquelle zeloso Magistrado, em cujo rosto se via o prazer, que sentia, por vêr satisfeitos os seus desejos, lançou com as próprias mãos a primeira pedra na arca, que já estava aberta na base do primeiro arco da parte d’Azurara; e todo o numeroso Povo, que tinha concorrido, gritou em altas vozes, abençoando o nome de S. Magestade, do Príncipe N. Senhor, e de toda a Real Família, pedindo aos Ceos a conservação dos seus preciosos dias, e não houve hum só que não fallasse em favor da sábia escolha, que S. Magestade tinha feito d’hum Ministro tão hábil, para promover os trabalhos desta obra importante: ELle foi ajudado neste acto pelos Desembargadores Firmino de Magalhães Siqueira d’Affonseca, Corregedor do Cível, e Conservador da Companhia; Francisco d’Azevedo Coutinho, Juiz da Corôa, e Procurador Fiscal da mesma Companhia; Francisco José de Faria Guião, Desembargador Aggravista, Conservador da Nação Britanica, e Commendador da Ordem de Christo; e Francisco Gregorio Pires Monteiro Bandeira, que fazendo pelas suas luzes o ornamento do seu Senado, quizerão tomar parte na glória do seu Collega. Assistírão tambem o Doutor Antonio Jose Coelho, nomeado Corregedor de Linhares, e os Juizes de Fóra da Povoa de Varzim, de Villa de Conde, e de Chaves, com o Deão da Cidade do Porto, de grandes virtudes, ainda que de tenros annos. Acabado que foi este acto, dérão os soldados três descargas, e se reduplicárão os vivas; a Procissão se recolheo em boa ordem à Igreja Matriz donde tinha sahido; e nas casa da sua aposentadoria, deo o Ill.mo Francisco d’Almada hum magnifico jantar em que a profusão competia com a delicadeza, e com o asseio. Acabado elle se encaminhárão todos a render as graças a Deos na Igreja Matriz, onde estava o Santíssimo exposto; e recitando o P. M. Doutor Fr. Bartholomeu Brandão, Agostinho Calçado, bem conhecido pelos seus estudos, huma eloquente Oração accomodada ao dia, e à função, mostrou quanto S. Magestade promovia a felicidade dos seus Vassallos, e quanto elles podião gloriar-se de serem fiéis, e de amarem o seu felicissimo Governo. Este Padre mostrou bem quanto occupava dignamente a Cadeira da verdade; e depois de cantado o Te Deum em Acção de Graças, se conduzio a Imagem de Nossa Senhora das Neves à sua Capella, donde tinha vindo naquella manhã. Na noite do dia 14 tinha havido hum brilhante fogo de artifício sobre a praia, á vista de Villa de Conde, e barca illuminada, cheia de instrumentos, que tocárão diversas composições dos melhores Mestres de Musica; e passando de huma para a outra parte do Rio, offerecia o mais bello espectaculo, que podia desejar-se. Este mesmo fogo se repetio na noite do dia quinze, ainda que em diverso sitio; e acabado elle, se representou pelos Comicos Portugueses do Theatro do Porto huma Comédia de meio caracter, a que assistio hum numerosoconcurso de Nobreza, e de Povo; e duas outras se respresentárão nas noites que se seguirão, fazendo-se tudo à custa do Ill.mo Francisco d’Almada, e Mendonça, que não poupa desvéço, nem cuidado no serviço de S. Magestade, e em fazer feliz a Commarca, que lhe foi encarregada. Á Comédia da noite do dia quinze se sehuio huma brilhante ceia, e acabada ella, o Doutor Antonio da Silva Salgada, que servio de Juiz de Fóra da Villa de Santa Martha, recitou hum Discurso, em que tomando por empreza louvar o Governo de S. Magestade, e a fidelidade dos seus Vassallos, mostrou que a nova Ponte era hum monumento de gloria, e que elle faria mais duravel o Real Nome na memoria dos Portuguezes; e discorrendo depois pelas boas qualidades do Ministro vigilante, e activo, a quem esta obra foi commetida, fez ver que a escolha não podia ser mais sábia, nem mais digna de S. Magestade. Enquanto os outros amontôam males, sobre males, a nossa Augusta Rainha ama o seu Povo, e o Povo ama a sua Rainha, que o faz ditoso.”
Na offic. de Simão Thaddeo Ferreira. Com licença da Real Meza da Comissão Geral sobre o Exame, e Censura dos Livros
Relação da solemnidade com que o Illustríssimo Francisco d’Almada e Mendonça, Desembargador, e Corregedor da Cidade do Porto, fez dar princípio à grande Ponte que S. M. mandou construir sobre o Rio Ave (s.d.)

A solene procissão da inauguração foi “comandada” por um andor com a imagem da Senhora das Neves, escolhida para padroeira da ponte, acompanhada por uma chapa de prata com a seguinte inscrição10:

Imperante
Maria Prima, Augusta, Pia,
Felicissimis Auspiciis
Lusitanie data
Et Regio Illius Nomine Cuncta moderante
Joanne Principe
Quem nobis Deus incolumen servet:
Regio Administro
Josepho de Seabra Silvio
Optimi Concilli viro
Et rebus difficilioribus gerendis nato
Auspice
Ut turgidi fluminus
Navigationis pericula vitarentur
Et iter facientibus
Securior patéret via
Populorum precibus, &
Pecunia
Non solum Nobis sed Posteris
Francisco de Almada, & Mendonça
Portucalensis Curie Senatori
Et ejusdem civitatis
Finium Pretori
De Republica benemerito
Construende Pontis Cura
Non Sine Concilio
Fuit Demandata
Diplomate Régio
Die VII Augustí
M.VCC.LXXXXII.
Tanti operis fundamenta jacta
Die XV. Augustí
M.VCC.LXXXXIII.
Pietatis Régie
Monumentum
Quod nulla delebit Oblivio

 
Como acontecia em quase todas as obras, estas prolongar-se-iam durante vários anos, tendo chegado à sua conclusão apenas em 1807/180811. Durante a sua construção foi utilizada uma ponte de madeira, temporária, por um período de 12 anos12. A monumental ponte de granito, com três arcos de volta perfeita13 e imponentes obeliscos no início das rampas de acesso do lado de Vila do Conde, durou menos tempo do que aquele que tardou a sua construção.

Um enorme temporal, iniciado com um tremor de terra no dia 7 de Janeiro de 1821 e que durou vários dias, ditou o seu final trágico na madrugada do dia 1114. Com a enchente do rio Ave, o massivo caudal fez desprender os pilares, assentes em estacaria de madeira, causando a derrocada total da ponte, poucos anos após a sua construção.

“A ponte de Vila do Conde (de pedra) ficou demolida, em consequência do princípio de sua ruína se ocasionar pelos alicerces. Duas casas com sete azenhas, que pertenciam às freiras desse sítio, diz-se, também se destruíram. Também se diz que fugiram pela barra dous iates.”
Patriota Portuense
15 de Janeiro de 1821

Assim, e quando nada o faria prever, a já referida barca das freiras regressou15, até que uma nova ponte fosse edificada.

Logo após a sua destruição foi realizado um anteprojeto, com duas alternativas, para a construção de uma nova ponte de granito, aproveitando a pedra da ponte que ruiu.


Figura 1
José Francisco de Paiva
Planta e Plano da Ponte de Villa do Conde e Azurara, para se construir, sobre o Rio Ave, no sitio onde se acha a Ponte demollida, para se concluir com a mesma pedra da dita Ponte aparelhando-ce de novo a que faltar, para a sua conclusão
Biblioteca Pública de Évora – Arm 3 e 4 est 1 Hem II, 32

Pelo que se sabe, e devido à inexistência de imagens da ponte de pedra antes do desabamento, esta imagem acima reproduzida (Figura 1) dá-nos uma ideia exacta de como seria a ponte, devido às semelhanças apresentadas entre este anteprojeto e a descrição que existe da ponte, para além do facto de ter sido criado pelo mesmo arquiteto, José Francisco de Paiva. Lê-se ainda na legenda, ponto A, que seria reformada seguindo as mesmas dimensões.


Figura 2
José Francisco de Paiva
Planta e Plano da Ponte de Villa do Conde e Azurara para se construir sobre o Rio Ave, no sitio onde se acha a Ponte demollida, esta ponte de hum so arco, que abrange toda a largura do rio, preciza-ce que todas as aduellas sejão novas, por diverças dimençoens, como se mostra na elevação do meio do Arco os malhetes de nova envenção, projectados, para pontes desta extenção.
Biblioteca Pública de Évora – Arm 3 e 4 est 1 Hem II, 33

Como alternativa, a nova ponte poderia ainda ter apenas um arco a toda a largura do rio e edificada um pouco mais a jusante, como se vê na Figura 2. De uma forma ou de outra, esta segunda ponte de pedra nunca chegaria a ser construída (como reconstrução da desmoronada). A ponte em madeira, conhecida como a “Ponte de Pau”, construída após provisão de D. João VI datada de 9 de Junho de 1821, seria muito provavelmente uma solução provisória que acabou por se tornar duradoura.

Durante vários anos, a grande parte das ruínas da ponte de granito aí continuaram, no leito do rio, à vista de todos os que passavam na referida ponte de madeira construída a jusante.


Figura 3
Pintura de James Holland (1837)
Repare-se nos maciços rochosos do lado esquerdo da imagem. São as ruínas da Ponte das Neves.

Em 1838 foi construído o cemitério de Azurara, junto ao extinto Convento de Santo António dos Capuchos 16, sendo utilizada pedra da ponte arruinada17.

Entre 1840 e 1849 procedeu-se à construção de um cais de cantaria na margem direita do rio, desde o “terreiro” até à foz, uma obra megalómana para a época, a qual aproveitou grande parte desta pedra trabalhada para a sua construção18.

Em 1841, um dos obeliscos que se encontravam nas extremidades das enormes rampas que se encontravam para nascente e poente à entrada da ponte, do lado de Vila do Conde, foi movido para um local situado entre a Capela de Nossa Senhora da Guia e o Forte de São João Baptista. Esta pirâmide aí se mantém até hoje, como Padrão da Memória da primeira tentativa de desembarque das tropas liberais, em 1832.


Figura 4
Nesta gravura ainda se vê uma das pirâmides à entrada da rampa de acesso à ponte. Como se visualizam algumas, mas poucas, casas na atual Avenida Bento de Freitas, esta gravura é muito provavelmente da década de 1870. Gravura disponível na loja.


Figura 5
Nesta gravura podemos ver as ruínas da ponte do lado direito. É de notar as casas da Rua dos Plames, as quais muitas delas ainda existem, embora com outra configuração.


Figura 6
Esta gravura, muito semelhante à anterior, mostra também as ruínas do lado direito e o casario da Rua dos Plames. Gravura disponível na loja.

Em Julho de 1886 o obelisco remanescente foi demolido, para o início das obras de construção da nova avenida de ligação à estação da linha férrea19 (Avenida Figueiredo Faria), tendo sido também construído por esta data o Largo da Meia Laranja, no local onde assentava a ponte na margem direita do rio. Por esta razão, o largo ficou popularmente conhecido por “Lugar da Ponte Caída“.

Em 1912 ainda existiria na base do Monte Santana uma “casa da portagem”, denominação ainda proveniente do tempo da ponte de pedra.20

Nos dias de hoje, apesar da enorme quantidade de pedra que terá sido removida do rio para a construção do cemitério de Azurara e cais novo de Vila do Conde, ainda é possível vislumbrar os vestígios da ponte, sem grande dificuldade, nos períodos de baixa-mar. Basta para isso dirigirmo-nos ao Lugar da Ponte Caída, o Largo da Meia Laranja, e olhar para o rio. À sua frente irá encontrar ainda muitas toneladas de pedra, dispostas perpendicularmente ao curso do rio, estando assim perenizada a memória desta ponte, que tanto custou e tão pouco durou.


Figura 7
Os destroços da Ponte da Senhora das Neves, nos dias de hoje

Revisão (30/08):
Durante a redação da primeira “versão” deste artigo, do dia 26 de Agosto, apenas tive acesso a uma folha da planta de José Francisco de Paiva (Figura 1), com uma resolução de baixa qualidade, na qual era impossível ler a legenda do canto inferior direito. Após contactar a Biblioteca Pública de Évora, onde se encontra a dita planta, fiquei a saber que a mesma é composta de duas folhas, as quais mediante pedido me foram enviadas por via digital, em alta resolução, em conjunto com um mapa que brevemente também irei partilhar. Com estes novos dados senti-me na obrigação de rever alguns pontos neste artigo:
– A imagem que possuía seria, tal como disse, uma representação da nova ponte de pedra que nunca chegou a ser construída. Seria assim uma das duas alternativas apresentadas por José Francisco de Paiva para a reconstrução da ponte, sendo esta (Figura 1, agora com muito melhor resolução) uma representação fiel da que ruiu, provavelmente a única imagem que representa esta ponte alguma vez publicada como tal (Figura 1).
– Na outra folha da planta, a qual eu não tinha conhecimento da sua existência e adicionei ao artigo (Figura 2), podemos ver outra alternativa da reconstrução da ponte. Caso esta opção fosse escolhida, a ponte não iria ter três arcos como a Ponte da Senhora das Neves, mas apenas um.
– A “Ponte de Pau” já teria sido construída à data da execução deste projeto da nova ponte de pedra, por isso a datação desta planta terá que se alargar para 1821-1824, entre o desmoronamento da Ponte das Neves e o falecimento de José Francisco de Paiva.
– Pela existência deste projeto e pela referência à ponte de pau entretanto construída ser feita tal como uma anterior, que existira por 12 anos enquanto a Ponte das Neves era construída, pode-se depreender que a ponte de madeira, existente durante quase todo o século XIX (1821-1893), seria também provisória. Com o falecimento do arquiteto, a construção da segunda ponte de pedra terá ficado em espera, acabando por nunca ser realizada.
– No mapa de Vila do Conde criado por este arquiteto, que já referi, parece-me que existiriam três obeliscos, dois na rampa a poente da ponte e um a nascente. É certo que haveria pelo menos um obelisco de cada lado, tal como se vê na plantas (Figuras 1 e 2). Pinho Leal refere que existiam “duas pyramides que se erguiam à entrada da avenida (…) que se prolongava de poente a nascente, na margem direita do Ave”. Ou seja, ambos estariam do lado poente, sabendo-se que um foi transladado (1841) e outro demolido (1886). O do lado nascente deverá também ter sido demolido numa data anterior, já que não se vislumbra na pintura de James Holland, de 1837 (Figura 3), onde pela sua dimensão deveria “aparecer” por trás das azenhas, caso ainda existisse.

  1. Livro das Sessões da Câmara Municipal de Vila do Conde nº 1, fl.18
  2. Eugénio da Cunha e Freitas – Subsídios para uma Monografia de Vila do Conde (1953) p. 1
  3. Livro das Sessões da Câmara Municipal de Vila do Conde nº 2, fl.37
  4. Mons. J. Augusto Ferreira – Villa do Conde e seu Alfoz (1923) p.65
  5. Transcrição completa no Boletim Cultural da Câmara Municipal de Vila do Conde – Nova Série – nº 10 (1992) pp. 43-50
  6. Carlos Martins – O Programa de Obras Públicas para Portugal Continental Vol. 1 (2014) p.133
  7. Arquivo Distrital do Porto – Diário das folhas de despesa da Ponte de Vila do Conde (1811-1818)
  8. Bertino Daciano, Eugénio da Cunha e Freitas, Serafim das Neves – Azurara, Subsídios para a sua Monografia (1948) p.136
  9. A. de Magalhães Basto – Da Grande Ponte de Granito sobre o Ave – O Primeiro de Janeiro (26-07-1946)
  10. A. de Magalhães Basto – Da Grande Ponte de Granito sobre o Ave – O Primeiro de Janeiro (26-07-1946)
  11. Carlos Martins – O Programa de Obras Públicas para Portugal Continental Vol. 1 (2014) p.50
  12. Livro das Sessões da Câmara Municipal de Vila do Conde nº 23, pp. 270-272
  13. Bertino Daciano, Eugénio da Cunha e Freitas, Serafim das Neves – Azurara, Subsídios para a sua Monografia (1948) p.121
  14. Podem-se encontrar mais registos deste enorme temporal no periódico Correio do Porto, nº 14, de 15 de Janeiro de 1821, ou ainda online no blog “O Sal da História”
  15. Bertino Daciano – Subsídios para uma Monografia de Vila do Conde (1953) p.142
  16. Também conhecido por Convento de São Francisco de Azurara ou de Nossa Senhora dos Anjos
  17. Bertino Daciano, Eugénio da Cunha e Freitas, Serafim das Neves – Azurara, Subsídios para a sua Monografia (1948) p.313
  18. João dos Reis – Coisas do Passado, Gente Humilde (1951) p.24
  19. Augusto Pinho Leal – Portugal Antigo e Moderno, 11º Volume (1886) p.697
  20. Monsenhor Ferreira – Azurara do Minho (1912) p.24
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