Memórias Paroquiais de 1758 (Vairão)

Primeira página das Memórias Paroquiais de 1758 – Vairão
Joachim RamosMemórias Paroquiais – Dicionário Geográfico de Portugal (1758) Tomo 38, V.1, nº6 (Vairão, Maia)

As Memórias Paroquiais são as respostas a um extenso inquérito enviado não periodicamente às paróquias do reino de Portugal.

As realizadas em 1758 são fruto da necessidade de fazer um levantamento das consequências do terrível terramoto de 1755, que devastou um pouco de todo o país.

Por ordem do Marquês de Pombal, o inquérito dividido em três secções (terra, serra e rio) foi enviado para todos os bispos do reino. Estes teriam a função de pedir aos seus párocos que redigissem as respostas, enviando-as para a Secretaria de Estado dos Negócios do Reino.

Os parágrafos numerados indicam as perguntas, sendo as respostas correspondentes transcritas no parágrafo seguinte. O pároco responsável pela redação das respostas concernentes a Vairão foi Joachim Ramos.

§1º – O que se procura saber dessa terra, é o seguinte:
(Venha tudo escrito em letra legível e sem breves)

Por ordem de Sua Excelência Reverendíssima, que recebi em quatro do mês de Março deste presente ano de mil setecentos e cinquenta e oito: as noticias que posso dar aos interrogatórios, de que se faz menção no papel junto são as seguintes:

1º – Em que província fica? A que bispado, comarca, termo, e freguesia pertence?

Fica sita esta freguesia do Salvador de Vairão na Província de Entre Douro e Minho, Bispado do Porto, Comarca da Maia, Termo da mesma cidade.

2º – Se é d’El-Rei; ou de Donatário, e quem o é ao presente?

É sujeita a dita freguesia a Sua Majestade, que Deus guarde.

3º – Quantos vizinhos tem, e o número de pessoas?

Tem vizinhos cento e oitenta três, pessoas maiores, e menores, setecentas e vinte e três.

4º – Se está situada em campina, vale ou monte; e que povoações se descobrem dela, e quanto dista?

Está situada parte dela em planície, e parte com alguns montes de muito limitada altura, dos quais se descobrem o mar distante quase duma légua, e em menos distância casas e terras das freguesias de Fajozes, Vila Chã, Mindelo, Salvador de Modivas, Santo Estevão de Gião, São Martinho de Fornelo e Salvador de Macieira, e também uma capela de Santa Eufémia situada em monte grande romagem no seu dia, o qual é na terceira Dominga de Setembro, em cada um ano, a qual fica nos limites da freguesia de Santa Maria de Alvarelhos da sobredita Comarca e, em mais distância de uma légua se avistam os arcos por donde vem a água encanada para o Mosteiro das Religiosas Franciscanas do Convento de Santa Clara de Vila do Conde, Arcebispado de Braga, os quais junto ao dito Convento são de altura eminente, e de admiração e comprimento mais de duas léguas.

5º – Se tem termo seu: que lugares, ou aldeias compreende; como se chamam; e quantos vizinhos tem?

Nada.

6º – Se a paróquia está fora do lugar, ou dentro dele? E quantos lugares ou aldeias tem a freguesia; e todos pelos seus nomes?

Está a dita Paróquia dentro da mesma freguesia, tem dentro dos seus limites as aldeias de Crasto, Carrezedo, Lama, Real, Passo, Covilhã e Vairão.

7º – Qual é o seu «Orago», quantos altares tem, e de que santos , quantas naves tem; se tem irmandades: quantas, e de que santos?

É seu orago da Matriz, o Salvador, tem esta cinco altares, o Mor, com o Padroeiro na tribuna, o da Senhora do Rosário na parte direita com a sua imagem, e desta mesma o do Senhor Crucificado pela parte de cima e pela de baixo São Caetano, e pela esquerda o do Evangelista com a sua imagem de vulto e também em capela separada na mesma igreja o do Baptista com a sua imagem de vulto também; não tem naves; há nela a irmandade do Senhor dos Santos Passos em uma capela separada junta à mesma Matriz da parte de fora pertecente à mesma freguesia. A de São Bento, das Almas, do Nome de Deus da Senhora da Encarnação da capela sita na dita aldeia de Real, a de Santo António na sua capela do Monte, todas pertencentes à freguesia; havia também duas mais há poucos anos, de São Sebastião, e São Caetano, mas estão extintas.

8º – Se o Pároco é cura, vigário, ou reitor, ou prior, ou abade, e de que apresentação é, e que renda tem?

É cura o Pároco que apresenta o convento da mesma freguesia de Religiosas de São Bento, que é a Matriz, tem côngrua anual de doze mil réis; que com os usos e costumes da freguesia com o passal fará ao tudo uns anos por outros, quarenta até cinquenta mil réis para sua côngrua sustentação.

9º – Se tem beneficiados: que renda têm; e quem os apresenta?

Nada.

10º – Se tem conventos, e de que religiosos ou religiosas; e quem são os seus padroeiros?

Há na dita freguesia, o sobredito convento das Religiosas do Patriarca São Bento, do qual é Padroeiro o Salvador.

11º – Se tem hospital: quem o administra; e que renda tem?

Nada.

12º – Se tem casa de Misericórida; e qual foi a sua origem; e que renda tem? E o que houver de notável em qualquer destas coisas.

Nada.

13º – Se tem algumas ermidas, e de que santos; e se estão dentro ou fora do lugar, e a quem pertencem?

Tem algumas ermidas nos limites da mesma freguesia, a de Santo António do Monte, a Senhora da Encarnação dos Passos pertencentes à freguesia, a de Santo António de Baixo tocante à quinta de Manuel José Monteiro Tinoco, a qual fica contígua às suas casas com porta para a rua, em todas estas se costuma dizer missa: há outra de Santa Maria Madalena do dito convento em pouca distância do mesmo, mas de presente arruinada e ultimamente a do Calvário, sita em Monte, adonde se não diz missa.

14º – Se acodem a elas romagens, sempre, ou em alguns dias do ano, e quais são estas?

À de Santo António, no seu dia 13 de Junho em cada um ano, costuma ir de romagem alguma gente, e ainda até o presente no Domingo seguinte, e na quarta Dominga do mês de Agosto anualmente também vai alguma a Santo Ovídio colocado na mesma capela.

15º – Quais são os frutos da terra, que os moradores recolhem com maior abundância?

São os frutos da terra em mais quantidade e abundância, milhão, trigo, centeio, vinho verde além de outros legumes, que por diminutos se não referem.

16º – Se tem juiz ordinário e câmara: ou se está sujeita ao governo das justiças de outra terra; e qual é esta?

Há juiz ordinário deste mesmo concelho da Maia sujeito às justiças da cidade do Porto.

17º – Se é couto, cabeça de concelho, honra ou beetria?

Nada.

18º – Se há memória de que florecessem, ou dela saíssem alguns homens insígnes por virtudes, letras ou armas?

Nada.

19º – Se tem feira, e em que dias, e quantos dura, e se é franca, ou cativa?

Há feira no souto da dita capela de Santo António do Monte em cada um ano às segundas segundas feiras de todos os meses, e nestes daí a quinze dias a mesma, cada uma destas dura um dia e ambas são cativas.

20º – Se tem correio, e em que dias da semana chega, e parte? E se o não tem, de que correio se serve; e quanto dista a terra aonde ele chega?

Há correio na Aldeia de Crasto da mesma freguesia, chega ao Domingo, e torna na sexta feira seguinte para a cidade do Porto donde também costuma vir, e neste se repartem cartas para várias povoações do Bispado do Porto, e Arcebispado de Braga, e algumas Vilas pertencentes a este.

21º – Quanto dista da cidade capital do bispado; e quanto de Lisboa, capital do Reino?

Dista esta freguesia da cidade do Porto três léguas e meia e da de Lisboa capital do Reino cinquenta e cinco e meia.

22º – Se tem alguns privilégios, antiguidades, ou outras coisas dignas de memória?

Está dentro nesta freguesia o dito Mosteiro das Madre Religiosas do Patriarca São Bento cuja antiguidade se faz digna de memória pois foi deste a primeira fundação no ano de quinhentos e vinte e três e de Cristo no de quatrocentos e oitenta e cinco por uma senhora de grande qualidade chamada Marispala em cujo tempo estava esta Província sujeita ao rei dos Suevos intitulado Veremundo.

23º – Se há na terra, ou perto dela, alguma fonte, ou lagoa célebre; e se as suas águas têm alguma especial virtude?

Nada.

24º – Se for porto de mar; descreva seu sítio, que tem por arte, ou por natureza; as embarcações, que frequentam, e que pode admitir?

Nada.

25º – Se a terra for murada, diga-se a qualidade de seus muros; se for praça de armas, descreva-se a fortificação; se há nela, ou no seu distrito algum castelo, ou torre antiga, e em que estado se acha ao presente?

Nada.

26º – Se padeceu alguma ruína no terramoto de 1755, e em quê; e se esta já foi reparada?

Não padeceu esta freguesia no terramoto do ano de mil setecentos e cinquenta e cinco, ruína alguma de consideração-

27º – E tudo o mais, que houver digno de memória, de que não faça menção o presente interrogatório.

E como nesta freguesia a respeito dos interrogatórios nem além deste, haja coisa digna de memória, não sou mais extenso, e menos a respeito das serras, e rios, de que se faz com numeração nos interrogatórios subsequentes por nesta terra e freguesia não haver a este respeito coisa alguma de ponderação. Hoje, Vairão 17 de Abril de 1758 anos.

Pároco Joachim Ramos.

[As §2º e §3º dizem respeito à serra e rio da terra. Não existindo serra ou rio em Vairão, não foram redigidas respostas]

Segunda e terceira páginas das Memórias Paroquiais de 1758 – Vairão
Quarta e quinta páginas das Memórias Paroquiais de 1758 – Vairão
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