Inscrição Lapidar de Vairão

Sérgio Paiva – 08/Jul/2020

Inscrição lapidar - Igreja de São Bento - Vairão

Em Vairão, mais precisamente na Igreja de São Bento, a igreja paroquial anexa ao Mosteiro de São Salvador de Vairão, podemos encontrar uma das inscrições lapidares mais estudadas de todo o país.

A famigerada epígrafe medieval de Vairão, composta atualmente por seis silhares de granito, tem sido motivo de várias leituras e interpretações ao longo dos últimos séculos. Foi encontrada no ano de 1608, soterrada num celeiro pertencente ao Mosteiro, durante uma das várias reformas realizadas no complexo. A comunidade religiosa era então liderada por D. Ana de Mendonça, última abadessa perpétua. Falecida em 1634, o Mosteiro foi desde aí liderado por abadessas trienais até 9 de Dezembro de 1891, data da morte da sua última monja, e abadessa, Ana Clementina do Sagrado Coração de Jesus.

Permanecendo no celeiro até 1899, a inscrição foi nesse ano deslocada para a Igreja de São Bento, mais especificamente para a parede norte da sede da Comissão Fabriqueira, no piso intermédio entre a sacristia e a torre sineira. A inscrição é composta por duas regras, divididas em seis silhares. Os silhares de diversas dimensões têm uma largura total de cerca de 3 metros, estando há decadas separados por listras de cimento e apresentam-se protegidos em toda a sua extensão por vidros recentemente colocados.

Na inscrição pode ler-se o seguinte texto:

IN NE DNI PERFECTVM EST TENPLVN HVNC PER MANIS PALLA DOVOTA
SVB DIE XIIII K AP ER ⁞ LXXIII REGNANTE SERENISSIMO VEREMVNDV RE

Os desdobramentos das palavras abreviadas, assinaladas com uma linha horizontal acima das mesmas, são os seguintes:

NE – nomine
DNI – Domini
DOVOTA – deovota
Kkalendas
APAprilis
EREra

in nomine Domini perfectum est templum hunc per manis Palla deovota
sub die XIIII kalendas Aprilis Era LXXIII regnante serenissimo Veremundu rex

“Em nome do Senhor, foi concluído este templo pela mão de Pala, devota,
no 14º dia antes das calendas de Abril da Era de 73, reinando o sereníssimo Rei Bermudo”

O 14º dia antes das calendas de Abril é o dia 19 de Março. A Era de 73, com o milhar omitido (1073), corresponde ao ano de 1035 do calendário gregoriano utilizado atualmente em Portugal. As duas personagens referidas na inscrição são identificáveis: Palla é Pala Froilaz (aparece referida em documentos entre os anos de 1032 e 1064) e neta de Domitria, a primeira religiosa conhecida do Mosteiro. Veremundu refere-se a Bermudo III, soberano do reino de Leão, do qual o condado Portucalense, onde Vairão se incluía, era uma dependência nessa época.

Desde 1637, ano em que Ieronymo da Cunha de Almeida, abade de Bitarães, redigiu um texto sobre esta inscrição e até aos dias de hoje, diversos historiadores se envolveram em tentativas de leitura e interpretação da inscrição. Quase sempre fundamentados apenas em antigas investigações e defeituosas reproduções, a totalidade dos autores estrangeiros que de alguma forma abordaram esta inscrição leram o “L” uncial da data, semelhante a um “2”, como “D” ou “DL”, criando-se assim o mito da existência de um suposto rei suevo do século V ou VI e de uma nobre Marispalla. Tal como demonstrado, basta uma correta interpretação da data para identificar Palla e Veremundu no século XI.

O “L” uncial, não sendo de comum utilização, também não é raro. Pode-se encontrar o mesmo tipo de letra por exemplo nas inscrições da Capela do Espírito Santo em Moreira do Lima (ano 1030, Era 1168)1 e das igrejas de São Martinho de Manhente (ano 1117, Era 1155)2 e São Pedro de Cête (do mesmo ano)3.

Por motivos diversos, destacam-se alguns dos vários estudos dedicados a esta inscrição de Vairão, os quais serão alvos de breves análises críticas:

Ieronymo da Cunha de Almeida, abade de Bitarães, foi o primeiro autor a dedicar um estudo integral a esta inscrição. O seu trabalho foi redigido em 16374 e dedicado à sua irmã, Maria de Almeida, monja do Mosteiro de Vairão. Permanecendo em manuscrito até 1918, foi nesse ano publicado como apêndice do volume IV do Episcopológio de Manuel Pereira de Novaes, uma compilação de manuscritos do final do século XVII publicados no ano referido pela Biblioteca Municipal do Porto. A análise de Novaes foi igualmente divulgada no mesmo volume5, sendo que a cópia do manuscrito de I.C.Almeida foi também publicada em separata. Pelos argumentos apresentados, divagantes e até inventivos, não é uma fonte de estudo credível. Foi o primeiro de muitos autores a confundir o “L” com um “D”, apontando à Era de 523 (ano 485) a execução da inscrição, sendo o responsável pela criação do mito de Veremundo, o rei suevo. Iniciou também o ciclo de múltiplas publicações a transformar manis em Maris, atribuindo à devota um nome próprio inexistente e substituindo o nome próprio por apelido. É de notar no seu desenho, apesar dos vários erros de leitura e interpretação, a presença de um silhar no final, apenas com um “X”, a meia altura das duas regras, e de um outro com uma espada, sob os silhares. A perda destas pedras não afeta a leitura e interpretação da inscrição. Uma vez que a leitura de Novaes foi publicada no mesmo livro, pode-se referir que incorreu nos mesmos dois erros (Era 523 e Maris Palla), para além de outros com menor importância. Não deve ter visto as pedras, já que refere que “Las Señoras Monjas (…) afirman que en la graneria (…) està en un lintel de Vna puerta ò Ventana Vna piedra (…)”. Se “as monjas afirmam”, é de crer que não viu a inscrição com os próprios olhos.

João Pedro Ribeiro, em 17936, foi o primeiro autor que se conheça a acertar na data (Era de 1073), afirmando que a primeira letra seria um “L”, semelhante a “2”, e “não havendo cousa mais obvia no Sec. XI, que exprimir-se a data incompleta, e sem se declarar, mil”. Critica veementemente quem quer desta inscrição criar um rei suevo (“sonhando”, “sem reflectir”, “frivola conjectura”, “allucinado”…). Repetiu a leitura em 18107 e 18198. Identifica o rei Bermudo III mas não consegue identificar a devota Palla, a quem denomina Marispalla. Analisou as pedras presencialmente, notando que as últimas letras de ambas as regras estavam ocultas por uma “moderna parede”. É de notar que, pouco depois da leitura de J.P.Ribeiro, o Mosteiro e Igreja entrariam na última grande reforma e reconstrução, datada dos últimos anos do século XVIII. Já aqui tinham desaparecido a espada e o “X” referidos por I.C.Almeida no século anterior.

Fidel Fita, em 18969 e 190210, apresenta uma nova e criativa leitura para a data. Criticando a leitura de Emil Hübner, publicada em 187111 (é de notar que nenhum deles se deslocou a Vairão para ver a inscrição) e que apoia a teoria do “D” no lugar do “L”, o epigrafista espanhol sugere que a primeira letra da data deveria ser um I (valendo mil), “criando” assim a Era IXXIII (1023), equivalente ao ano de 985, coevo do reinado de Bermudo II de Leão. Sendo que a interpretação de Fita é baseada na leitura de Hübner, ambas as publicações apresentam falhas adicionais, como Marispalla e outras de menor relevo.

José Augusto Ferreira, prior de Vila do Conde entre 1893 e 1921 e autor de importantes monografias sobre Vila do Conde e Azurara, foi em 190712 o primeiro a ler corretamente Manis, embora identificando como antropónimo. Também leu corretamente a data e incluiu uma gravura com uma fotografia da inscrição, cedida pelo Conde de Azevedo, Pedro de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon, onde se pode notar relativamente bem a ligatura que representa o “N” de VEREMUNDV, apesar de grande parte da gravura se encontrar bastante sombria. Repete a leitura na primeira grande monografia sobre o concelho de Vila do Conde, em 192313.

Fotografia publicada em 1907 (José Augusto Ferreira – O Couto e o Mosteiro de Vairão)

Agostinho de Azevedo, em 193914, publica o seu magnum opus relativo às antigas terras da Maia, que englobava diversas freguesias anexadas no século XIX por Vila do Conde. No capítulo que diz respeito a Vairão, começa desde logo por analisar a epígrafe. Parece concordar com a leitura de J.A.Ferreira, já que é a primeira que transcreve, referindo-se às restantes como “outras versões”. Como curiosidade, menciona que os silhares se encontravam do lado oposto da parede onde se encontram atualmente, sendo esta parede a divisória entre a Igreja e o antigo celeiro do Mosteiro referido desde a publicação de I.C.Almeida, de onde os silhares foram transferidos em 1899. Azevedo faz a primeira referência à reprodução em gesso existente no Museu Etnológico Português (atualmente denominado Museu Nacional de Arqueologia), executada por ordem de Félix Alves Pereira, seu conservador entre 1902 e 1911. Inclui uma gravura de uma fotografia da reprodução, muito semelhante à da inscrição original publicada por J.A.Ferreira, em termos de conservação e contraste, condições que se modificariam um pouco nas décadas seguintes. Refere ainda que Félix Pereira teria, antes de falecer em 1936, intenção de redigir um artigo onde defenderia a leitura “DL” para o “L” uncial, versão corroborada bem mais recentemente por Alberto Ferreiro.

Reprodução em gesso da inscrição lapidar de Vairão
Fotografia da reprodução em gesso, publicada em 1939 (P.e Agostinho de Azevedo – A Terra da Maia)

José Vives, em 194015 e 194216, defende a leitura de Fidel Fita, apontando a inscrição ao século X. Apesar de não ter visto a epígrafe, os seus argumentos são credíveis e enquadram-se quer para o século X quer para o século XI, data real da inscrição. O facto de templum não ser utilizado antes do século VIII, tal como as expressões Deo uotasub die, regnanteserenissimus não terem paralelismo com inscrições ou documentos do tempo dos suevos, são fortes sinais que evidenciam o erro em que incorrem os autores que atribuem a datação da epígrafe aos primórdios da Idade Média. Apesar de a teoria ser acertada, é puramente especulativa. A falta de leitura presencial causa a existência de alguns erros na reprodução da inscrição.

Armando de Mattos, em 194317, dedicou um extenso estudo a esta lápide, sendo também bastante crítico das leituras divergentes. Foi o primeiro a identificar manis como tendo o significado de “pela mão de”, em vez de nome próprio. A leitura e respetivas tradução e interpretação não deixam muita margem para dúvidas. Na sua publicação inclui-se uma gravura que pode dissuadir quase todas as incertezas que pudessem existir, já que o contraste verificado nessa época na epígrafe era mais acentuado, para além de ainda não se vislumbrarem as cimentações que hoje dividem os silhares. São de notar “TENPLUN HUNC”, “MANIS” e a distância entre o “L” da data e a fratura que atinge o segundo e terceiro silhares. Repetiu a leitura e gravura principal em 194618.

Inscrição lapidar - Igreja de São Bento - Vairão
Fotografia publicada em 1943 (Armando de Mattos – Dois Estudos)

Na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, publicada em meados do século XX19, encontra-se uma leitura quase correta, omitindo apenas as linhas de duas abreviaturas e adicionando um “N” onde não existe (NNE), sendo este provavelmente apenas um erro tipográfico. A interpretação é correta.

Edward Arthur Thompson, no Colóquio Visigótico de Dublin em 1975, apresentou um interessante trabalho académico versando sobre a Espanha sueva que seria publicado em 198020. Infelizmente, o segmento dedicado à epígrafe de Vairão torna-se quase caricato, pela profunda ignorância que o autor demonstra ter em relação à subsistência da inscrição e às várias análises já realizadas. Por entre o turbilhão de erros grosseiros, destacam-se dois: refere que a inscrição é somente conhecida por documentos dos séculos XVII e XVIII e que apenas José Vives dedicou uma discussão detalhada a este tema.

Alberto Ferreiro foi provavelmente o único estrangeiro a visitar o Mosteiro de Vairão, redigindo em 199721 um extenso trabalho acerca do tema, já por ele discutido no ano anterior22. Apesar de ter uma leitura quase correta, já estaria muito sugestionado pelo que tinha lido em outros textos, falhando assim nos dois pontos cruciais da leitura. O “D” inexistente e o nome da devota, cujo nome se tornou, uma vez mais, Marispalla… Admite que o L existe, mas que seria uma ligatura com um “D” precedente que teria desaparecido com o passar dos tempos e cuja linha vertical estaria na fratura que se encontra antes do “L”. Assim sendo, a data entendida por A.Ferreiro é DLXXIII (Era 573, ano 535 AD). Não parece de todo provável já que, a existir, essa linha deveria estar obviamente encostada ao “L”. Observando-se espaço entre a dita fratura e o “L”, em especial no segmento inferior, torna-se legítimo assumir que nada da inscrição se perdeu com a dita fratura. É ainda mais simples verificar essa realidade nas fotografias da epígrafe publicadas por José Augusto Ferreira e Armando de Mattos, ou mesmo na da reprodução em gesso publicada por Agostinho de Azevedo. A ligatura “DL”, ao contrário do “L” uncial que se vê na inscrição, não encontra paralelismos. A.Ferreiro incluiu na bibliografia o artigo de José Augusto Ferreira, que, apesar de ter uma leitura correta da expressão e data mencionados, não desenvolve o tema, dado que o artigo era generalista a respeito da história do Mosteiro. Poderia ser um lampejo para o historiador espanhol caso se alicerçasse também nas obras de Armando de Mattos, Agostinho de Azevedo, ou até na GEPB. A.Ferreiro refere ainda que o “L” pode ser paleograficamente descartado, por ser diferente dos de Marispalla, o que demonstra o seu desconhecimento de outras epígrafes cronologica e geograficamente próximas que utilizam este “L” uncial em datas mas não no resto do texto. Suporta-se ainda na circunstância de Vives admitir que a letra seja um “D”, o que obviamente advém do facto de ter apenas visto desenhos que apresentavam um “D” e nem sequer uma fotografia ou gravura. Inclui na bibliografia Frei Leão de São Tomás como “um importante intermediário antes de a fratura ser reportada nas fontes”, quando o abade de Tibães apenas escreve sobre o “letreyro de hũa pedra, que as Religiosas dizem, que tem em seu celeyro”. Continuando a tentar contra-argumentar Vives, em relação à expressão regnante serenissimus apenas acaba por concluir que não há evidência substancial que contrarie a sua existência já nos séculos V ou VI, após reconhecer que ambas as palavras são comuns durante o domínio leonês. Cita Sanchez Candeira, que reproduz documentos que se referem a Bermudo III de Leão como Ueremudus serenissimus princeps e Ueremudus rex23. Será assim tão difícil de aceitar que é este o soberano referido como serenissimus Veremundus rex na inscrição lapidar de Vairão?

Mário Jorge Barroca apresenta a sua dissertação de doutoramento no ano de 1996, sendo a mesma publicada em 2000, tornando-se na maior base de dados de epígrafes medievais a nível nacional. Aí se inclui a inscrição de Vairão24, cuja análise merece uma atenção especial do autor devido a ser “uma das epígrafes portuguesas mais vezes referida em estudos”. Tendo apenas três falhas de leitura com pouca ou nenhuma importância (“HANC”, “⋮” e “VEREMU(n)DU”), a sua interpretação e análise crítica a outras leituras são altamente assertivas.

Dividindo a inscrição para uma análise segmentada, temos que:

IN NE DNI – in nomine Domini (em nome do Senhor) – não deixa qualquer tipo de dúvida.

PERFECTVM EST TENPLVN HVNCperfectum est templum hunc (foi concluído este templo) – as ligaturas de “TENPLVN” apresentam efetivamente a letra “N”, similares a todos os outros “N” da inscrição, e substancialmente diferentes dos “M” geminados, como se pode observar em “PERFECTVM” e “VEREMVNDV”. Apesar do erro ortográfico, a interpretação é óbvia, e segundo Vives de mais fácil atribuição à época da Reconquista Cristã e posteriores pelo uso de templum. A.Ferreiro, reconhecendo este facto, refere que o mesmo não impossibilita que a epígrafe seja do tempo dos Suevos, apesar de isso a tornar na inscrição mais antiga a utilizar este termo, por uma diferença de quase dois séculos. Barroca lê “HANC”, o que não parece se verificar, especialmente se atentarmos às fotografias antigas existentes da inscrição. De qualquer forma, refere que o termo correto seria logicamente “HVNC”.

PER MANIS PALLA DOVOTA – per manis/manus Palla deovota (pela mão de Pala, devota) – uma das expressões que tem mais leituras erradas que corretas, nomeadamente no vocábulo manis, que é repetidamente transformado em Maris. A letra central é sem dúvida um “N”, idêntico a todos os outros da inscrição e diferente de todos os “R”, em particular porque não se vislumbra qualquer vestígio de linha horizontal no seu topo. Quanto à interpretação, José Augusto Ferreira parece especular ser antropónimo, pelo uso de maiúscula (Manis Palla). Armando de Mattos alega um erro gramatical ou ortográfico, por câmbio com manus (genitivo homónimo de manus – mão), o que será a interpretação mais correta. É intrigante a proximidade dos extremos inferiores do “N” e do “I”. Será que o canteiro quereria, de facto, representar uma ligatura “NV” (MANVS)? Também os “V” de “VEREMVND\|” e “H\|NC” se encontram levemente fracionados. A expressão per manus é comum em documentos coevos, sendo a epígrafe portuguesa cronologicamente mais próxima a utilizá-la do século seguinte, encontrando-se na Igreja de São Salvador de Unhão, Felgueiras25. O documento mais antigo a referir a devota Pala Froilaz (ou Froiaz/Forjaz/Froilaci, não confundir com a sua sobrinha-neta Pala Nunes) foi redigido em 1032. Suportado por documentos existentes na Universidade de Coimbra e que permanecem inéditos, e indicando certeza no parentesco, José Mattoso refere que Pala seria filha de Froila Osoredes, por sua vez filho de Domitria26 27, a primeira patrona da comunidade religiosa de Vairão. Sendo neta de Domitria, é mais que provável que seja esta a Palla referida na epígrafe.

SVB DIE XIIII K AP – sub die XIIII kalendas Aprilis (no 14º dia antes das calendas de Abril) – outro segmento que não oferece dúvida. I.C.Almeida escreveu XIII no seu desenho, erro repetido por outros autores que apenas transcreveram a sua leitura. Apesar disso traduziu para 19 de Março, data correta, o que indica apenas um lapso na execução do desenho.

ER ⁞ LXXIIIEra LXXIII (Era 73) – a expressão que mais dúvidas levanta aos autores, apesar de ser de leitura relativamente simples. Os pontos sobrepostos nas inscrições lapidares habitualmente indicam apenas a mudança de palavra. Neste caso, por serem os únicos da inscrição, dão uma ênfase especial ao seguinte termo, a data. Barroca identificou apenas três pontos em vez de quatro. Comparando com as suas outras leituras de epígrafes medievais, esta é a mais antiga a utilizar quatro pontos sobrepostos, por uma diferença de mais de um século. Com o avançar da segunda metade da Idade Média, a utilização deste tipo de separadores (com um a sete pontos sobrepostos verticalmente) foi cada vez mais utilizada28. O “L” uncial, identificado por Ribeiro (embora escreva “Letras Romanas iniciaes”), Mattos e Barroca, é um tipo de letra que encontra paralelismos em outras inscrições, próximas em termos geográficos e cronológicos desta inscrição de Vairão. Ao contrário do que escreve A.Ferreiro, a leitura de “L” não pode ser paleograficamente descartada apenas por ser diferente dos outros “L” da mesma inscrição. Não há falta de epígrafes que usam o “L” uncial para a data e outro “L” para o texto, tal como já referido e reproduzido em seguida. Assumindo com naturalidade a comum ausência do milhar, a Era será a de 1073, correspondendo a 1035 AD.

Epígrafe da Capela do Espírito Santo, Moreira do Lima
Epígrafe da Capela do Espírito Santo, Moreira do Lima – “L” do texto (TEMPLV) diferente do “L” uncial da Era (MLXVIII)
Note-se ainda o paralelismo da expressão “PFCTVM ÆST TEMPLV” com a da epígrafe de Vairão
Mário Jorge Barroca – Epigrafia Medieval Portuguesa, Vol.II Tomo I (2000) p.78
Epígrafe da Igreja de São Martinho de Manhente
Epígrafe da Igreja de São Martinho de Manhente – “L” do texto (GUNDESALVVS) diferente do “L” uncial da Era (MCLV)
Mário Jorge Barroca – Epigrafia Medieval Portuguesa, Vol.II Tomo I (2000) p.156
Epígrafe da Igreja do Mosteiro de São Pedro de Cête
Epígrafe da Igreja do Mosteiro de São Pedro de Cête – “L” uncial da data (MCLV) diferente do “L” do texto (FMLVS)
Mário Jorge Barroca – Epigrafia Medieval Portuguesa, Vol.II Tomo I (2000) p.159

REGNANTE SERENISSIMO – regnante serenissimo (reinando o sereníssimo) – sem qualquer tipo de problema de leitura ou interpretação, já foram reproduzidos os argumentos de Vives e contra-argumentos de A.Ferreiro. É mais evidente associar-se a expressão aos meados da Idade Média do que ao seu início. Embora não seja apenas por esta expressão que seja descartada a hipótese do rei suevo, é mais uma informação que faz apontar a inscrição ao período leonês.

VEREMVNDV REVeremundo Rex/Rege (Rei Bermudo) – Bermudo III foi o soberano do Reino de Leão entre 1027 e 1037. A 23 de Março de 1035 travou uma batalha em Cesar contra os Mouros29, o que poderá indicar que assistiu à inauguração do novo templo de Vairão, apenas quatro dias antes. A ligatura que representa o “N” parece existir, notando-se também na fotografia publicada por J.A.Ferreira. Não obstante, Barroca lê “VEREMU(n)DU”, indicando que apesar de não identificar o “N”, seria apenas por falha de redação do canteiro. Quanto a “RE”, os autores dividem-se na interpretação: Rex ou RegeRex será a leitura mais natural, até pela existência de um “X” no sétimo silhar que se perdeu. Mas como refere Mattos, será que “o canteiro teria receio de que esta letra lhe não coubesse na sexta pedra?” Parece pouco provável. Defende que “RE” seria abreviatura do ablativo rege, o que também não é de descartar. A mesma interpretação tem A.Ferreiro. Como todas as abreviaturas são indicadas por uma pequena linha horizontal, é mais plausível que o cinzelador quisesse representar rex. De uma forma ou de outra, “RE” refere-se ao rei, não sendo por este último termo que a interpretação global da epígrafe terá significados distintos.

Seguem-se as fotos dos silhares, fotografados individualmente em Junho de 2020. O segundo silhar é o que se encontra em pior estado de conservação, onde se observa a maior parte da fratura já referida, mas não há dúvidas na sua leitura. Os quinto e sexto apenas podem ser fotografados através do último vidro, visto que este é inamovível, daí os problemas de reflexo nas imagens dos mesmos.

Inscrição lapidar - Igreja de São Bento - Vairão - silhar 1
Inscrição lapidar – Igreja de São Bento – Vairão – silhar 1
Inscrição lapidar - Igreja de São Bento - Vairão - silhar 2
Inscrição lapidar – Igreja de São Bento – Vairão – silhar 2
Inscrição lapidar - Igreja de São Bento - Vairão - silhar 3
Inscrição lapidar – Igreja de São Bento – Vairão – silhar 3
Inscrição lapidar - Igreja de São Bento - Vairão - silhar 4
Inscrição lapidar – Igreja de São Bento – Vairão – silhar 4
Inscrição lapidar - Igreja de São Bento - Vairão - silhar 5
Inscrição lapidar – Igreja de São Bento – Vairão – silhar 5
Inscrição lapidar - Igreja de São Bento - Vairão - silhar 6
Inscrição lapidar – Igreja de São Bento – Vairão – silhar 6

Um vasto número de autores referem a célebre epígrafe de Vairão, mas sem oferecer nada de novo à discussão, abrangendo estas publicações quase todos os principais idiomas românicos e germânicos: português, castelhano, inglês, alemão, francês e holandês 30 31 32 33 34 35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52.

Conclusão:

Com este estudo espera-se que, de uma vez por todas, seja terminado o mito do rei suevo-visigótico Veremundo, do século V ou VI, consoante as interpretações dos autores. Todas as indicações desta epígrafe apontam para a Era 1073. Resumindo:

  • A data na inscrição: conhecendo-se o uso recorrente do alfabeto uncial para a redação das Eras em inscrições lapidares, a data é naturalmente lida como 73 (Era 1073 ou 1035 AD).
  • As várias expressões indicadas por Vives são comuns no período posterior à Reconquista Cristã.
  • Os pontos sobrepostos são raros mesmo no século XI, sendo cada vez mais utilizados com o avanço da Idade Média.
  • Palla é identificável como Pala Froilaz, neta da primeira religiosa conhecida do Mosteiro de Vairão, Domitria.
  • Veremundu é identificável como Bermudo III de Leão.
  1. Mário Jorge BarrocaEpigrafia Medieval Portuguesa, Vol.II Tomo I (2000) p.78
  2. Mário Jorge BarrocaEpigrafia Medieval Portuguesa, Vol.II Tomo I (2000) p.156
  3. Mário Jorge BarrocaEpigrafia Medieval Portuguesa, Vol.II Tomo I (2000) p.159
  4. Ieronymo da Cunha de AlmeidaIuizo Historico sobre o Letreiro que se achou em hua pedra que estaua no celeiro do Mosteiro de Vayrão (separata de Anacrísis Historial – Episcopológio) (1918)
  5. Manuel Pereira de NovaesCollecção de Manuscriptos Inéditos Agora Dados à Estampa IV – Anacrísis Historial (II parte) Episcopológio – vol.IV (1918) p.217
  6. João Pedro RibeiroMemoria Ácerca da Inscripção Lapidar, que se acha no Mosteiro do Salvador de Vayrão, de Religiosas Beneditinas, no Bispado do Porto, e da pertendida antiguidade do mesmo Mosteiro, que daquella inscripção se tem procurado deduzir – Memorias de Litteratura Portugueza – tomo V (1793) p.421
  7. João Pedro RibeiroDissertações Chronologicas e Criticas sobre a Historia e Jurisprudencia Ecclesiastica e Civil de Portugal Tomo I (1810) p.350
  8. João Pedro RibeiroDissertações Chronologicas e Criticas sobre a Historia e Jurisprudencia Ecclesiastica e Civil de Portugal Tomo IV Parte I (1819) p.115
  9. Fidel FitaInscripciones Visigóticas – Noticias. Cuaderno III (Marzo 1896) – Boletín de la Real Academia de la Historia. Tomo 28 (1896) p.268
  10. Fidel FitaInscripciones Visigóticas y Suévicas de Dueñas, Baños de Cerrato, Vairaom, Baños de Bande y San Pedro de RocasBoletín de la Real Academia de la Historia – Tomo 41 (1902) p.495
  11. Emil HübnerInscriptiones Hispaniae Christianae (1871) p.43
  12. José Augusto FerreiraO Couto e Mosteiro de Vairão – O Archeologo Português Vol.XII (1907) p.282
  13. Mons. J. Augusto FerreiraVilla do Conde e seu Alfoz (1923) p.46
  14. P.e Agostinho de AzevedoA Terra da Maia (1939) p.204
  15. José VivesInscriptiones Hispaniae Christianae: Cuestiones de datación – Spanische Forschungen der Görresgesellschaft vol.8
    (1940)
  16. José VivesInscriptiones Cristianas de la España Romana y Visigoda (1942) p.123
  17. Armando de MattosDois Estudos (1943)
  18. Armando de MattosInventário das Inscrições do Douro Litoral – Boletim Douro Litoral segunda série, volume VI (1946) p.60
  19. Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira vol.XXXIII p.696
  20. E. A. ThompsonThe Conversion of the Spanish Suevi to CatolicismVisigothic Spain: New Approaches (1980) p.82
  21. Alberto FerreiroVeremundu R(eg)e: Revisiting an Inscription from San Salvador de VairãoZeitschrift für Papyrologie und Epigraphik Bd. 116 (1997) pp.263-272
  22. Alberto FerreiroSueves and Martin of Braga: Historiography and Future Research Projects – Suevos – Schwaben Das Königreich der Sueben auf der Iberischen Halbinsel (411-585) (1996) p.48
  23. Alfonso Sanchez CandeiraEl “Regnum-Imperium” Leones hasta 1037Monografias de Ciencia Moderna 27 (1951) p.69
  24. Mário Jorge BarrocaEpigrafia Medieval Portuguesa, Vol.II Tomo I (2000) p.83
  25. Mário Jorge BarrocaEpigrafia Medieval Portuguesa, Vol.II Tomo I (2000) p.310
  26. José MattosoA Nobreza Rural Portuense nos Séculos XI e XIIAnuario de Estudios Medievales nº 6 (1969) p.475
  27. José MattosoLe Monachisme Ibérique et Cluny (1968) p.138
  28. Mário Jorge BarrocaEpigrafia Medieval Portuguesa, Vol.I (2000) p.206
  29. Fr. Antonio BrandãoTerceira parte da Monarchia Lvsitana (1632) p.558 – as Eras alusivas a Bermudo III divergem em 10 anos, basta reparar na efeméride seguinte que refere a sua morte na Era 1085 (em vez de Era 1075 – 1037 AD – quando a 4 de Setembro foi morto pelo seu cunhado e futuro Rei, Fernando I)
  30. Frey Leão de São ThomasBenedictina Lvsitana dedicada ao grande Patriarcha S. Bento tomo II (1651) p.351
  31. Hieronymo Contador de ArgoteDe antiquitatibus Conventus Bracaraugustani, libri quatuorCollecçam dos documentos, e memorias da Academia Real da Historia Portugueza (1728) p.320
  32. Antonio Cerqueira PintoCatalogo dos Bispos do Porto (1742) p.82
  33. Joachim RamosMemórias Paroquiais – Dicionário Geográfico de Portugal (1758) Tomo 38, V.1, nº6 (Vairão, Maia), f.30
  34. Franciscus GörresEin Suevenkonig Beremund – Forschungen zur Deutschen Geschichte (1874) p.405
  35. Biblioteca Municipal do PortoCatalogo da Bibliotheca Publica Municipal do Porto (1879) p.187
  36. José Leite de VasconcellosReligiões da Lusitania (1913) p.553
  37. Engelbert Leendert SmitDe oud-christelijke monumenten van Spanje (1916) p.10
  38. Dictionnaire d’Archéologie Chrétienne et de Liturgie – Tome Cinquième, Première Partie (1922) c.482
  39. Ernst DiehlInscriptiones Latinae Christianae veteres Vol.1 (1925) p.335
  40. Stephen McKennaPaganism and Pagan Survivals in Spain up to the Fall of the Visigothic Kingdom (1938) p.78 n.11
  41. António Machado de FariaObservações a Dois Estudos de Arqueologia – Arquivo Histórico de Portugal Vol.V (1944) p.63
  42. José Maria Cordeiro de SousaRelação das Inscrições dos Séculos VIII a XII Existentes em Portugal nº 34 – Ethnos vol.III (1948)
  43. Centro de Estudios Históricos InternacionalesÍndice Histórico Español Vol.XXV Núm.107 (1997) p.142
  44. Isabel VelázquezHistoire et archéologie de la Péninsule ibérique antique, chronique VI: 1993-1997 – Revue des Études Anciennes 102-1-2 (2000) p.265
  45. Alcina Manuela de Oliveira MartinsO Mosteiro de S. Salvador de Vairão na Idade Média: o Percurso de uma Comunidade Monástica (2001) p.39
  46. Roger CollinsLa España Visigoda (2004) p.28 n.59
  47. Jorge AriasIdentity and Interaction: the Suevi and the Hispano-Romans (2007) p.25
  48. Daniel KönigBekehrungsmotive: Untersuchungen zum Christianisierungsprozess im römischen Westreich und seinen romanisch-germanischen Nachfolgern (4.-8. Jahrhundert) (2008) p.64
  49. Carlos A. Moreira AzevedoOrdem dos Eremitas de Santo Agostinho em Portugal (2001) p.82
  50. Henar Gallego FrancoDomina mea: mujeres, protección y caridad en Hispania tardoantigua (ss. V-VII d.C.)Arenal Revista de Historia de las Mujeres Vol.18 Nº2 (2011) p.353
  51. María Teresa Muñoz García de IturrospeMujeres Religiosas en la Hispania Cristiana y Visigoda: de la «Virgo» a la «Univira» – Estudios de Latín Medieval Hispánico (2012) p.102
  52. Mélanie WolframA Mulher Cristã na Antiguidade Tardia – Narrativas do Poder Feminino (2012) p.655
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