Toponímia de Vila do Conde (parte 2)

Sérgio Paiva – 11/Jul/19

Como vimos na primeira parte, Almeida Fernandes sugere também Afonso Betote como o conde que deu o nome à Villa. Neste caso, ele apresenta o conde Betote como ascendente de Flamula, mas por via paterna. Depois de Afonso Betote, a “sua” Villa de Comite teria sido herdada sucessivamente nas gerações seguintes por Tedon Betotes, Pelagio Tedones e, finalmente, Flamula. Esta hipótese não deverá ser a correcta, já que não há nenhum estudo que indique que Tedon Betotes tenha tido um filho de nome Pelagio, ou Paio. Esta relação deve ter sido criada como forma de ligar Flamula ao conde Betote pela via paterna, utilizando os apelidos (patronímicos) para inferir a sua ascendência.

Uma linhagem mais credível para Pelagio é-nos apresentada por José Mattoso1. Pelagio Tedones, o pai de Flamula, seria filho de Tedon Lucides, por sua vez filho de Lucidio Vimaranes e neto do presor do Porto, Vímara Peres. Isto mostra-nos uma segunda opção, segundo a qual o conde que deu nome à Villa seria Vímara Peres.

1.2 – Vímara Peres, presor do Porto e primeiro conde de Portucale

Vímara Peres foi outro dos condes asturianos enviados pelo rei Afonso III para reconquistar terras aos mouros, na segunda metade do século IX. Neste tempo, a Reconquista Cristã, iniciada no século anterior, teve um grande impulso pela iniciativa deste rei e do seu pai e antecessor, Ordonho I. Após assegurarem e ser estabelecido o domínio da Galiza, os seguintes alvos seriam naturalmente as terras a sul, precisamente os burgos mais desenvolvidos do norte do actual Portugal.

Vímara foi o presor do Porto, em 868, sendo também o presumível fundador de Vimaranes, actual Guimarães. Após a reconquista do Porto, foi ele o fundador do Condado Portucalense, tornando-se assim não só um mero conde asturiano e presor dos tempos da Reconquista, mas mais significativamente o conde mais relevante nas terras próximas a Vila do Conde. Seguindo a genealogia apresentada por José Mattoso, na qual Vímara seria trisavô de Flamula, esta teoria surge como um forte cenário para a resolução do caso da toponímia de Vila do Conde, hipótese corroborada pelo historiador vilacondense António do Carmo Reis.

“O documento do acto ficou escrito e não diz o nome do conde. Porque se houvesse de lhe ser dado um nome, teria sido redundante e confuso. Na verdade, o senhor Vímara Peres já tinha uma “vila vimaranis”. A outra vila, também sua, ficaria somente com a referência à categoria nobre do seu dono: ou seja, apenas ‘Villa de Comite’.”
António do Carmo Reis
Nova História de Vila do Conde (2000) – p.36

Tentando reunir aqui a maioria dos condes que já foram citados como a origem do nome de Vila do Conde, uma outra hipótese é apresentada pela Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

1.3 – Pelagio Vermudes, presor de Vila Mou e fundador do Mosteiro de São Salvador da Torre

“Tudo o que possa supor-se para determinar quem eram os pais daquela dona, prováveis possuidores da “villa”, se torna muito falível; mas olhando ao tempo, aos nomes, ao título condal, à possessão inicial por presúria, como parece indubitável, e considerando ainda o não poder ser o conde muito anterior ao séc. X e a obra de presúria e repovoamento realizada precisamente no tempo de Afonso III, 866-910, qual a assinalam os cronicões da Reconquista e, na região interamnense, tantos dos nossos documentos, é possível pensar no conde D. Paio Vermudes, porque: era “comes” (ou “dux”); era Paio (Pelagius, nos documentos latinos); viveu em época pouco anterior à primeira notícia conhecida sobre a “villa do conde”; foi o maior presor e cabeça de presores nesta região nos tempos do monarca – e, para fecho da questão, um documento o indica como tendo vindo de Tui a presurar “Villas” até ao Douro.”
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. XXXV (1967) pp.466-467

Pelagio Vermudes foi um outro conde medieval, enviado para presurar terras entre Minho e Douro, segundo um documento transcrito por Rui Pinto de Azevedo23.

Sabendo-se, ou encarando como hipótese mais verosímil, a de que o pai de Flamula seria Pelagio Tedones, podemos facilmente descartar esta teoria. A conjetura apresentada na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira teve apenas em conta o nome próprio do pai de Flamula e a presunção de que seria ele o “conde da vila”, apresentando um conde com o mesmo nome para a resolução do problema.

Iremos então debruçar-nos sobre teorias que apontam para outros presores da Reconquista, como por exemplo Hermenegildo Guterres e Ero Fernandes, como possíveis condes que terão dado o nome à Vila, na parte 3 da toponímia de Vila do Conde.

Toponímia de Vila do Conde (parte 1)
Toponímia de Vila do Conde (parte 3)
Toponímia de Vila do Conde (parte 4)
Toponímia de Vila do Conde (parte 5)

  1. As Famílias Condais Portucalenses dos Séculos X e XI (1970) p.13
  2. “… uenit dux Pelagius Vermudiz cum aliis ducibus qui de suo genere erant ad prendendum terram de sucinnororum ad expellendas omnes gentes ismahelitarum, et preserunt per illam terram uillas inter Mineo et Dureo…”
  3. Rui Pinto de Azevedo – “A presúria e o repovoamento entre Minho e Lima no século X (Origens do mosteiro de S. Salvador da Torre)”, p. 267

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