Toponímia de Vila do Conde (parte 3)

Sérgio Paiva – 18/Jul/19

Descartando a hipótese de Pelagio Vermudes e assumindo as hipóteses de Afonso Betote e Vímara Peres como credíveis, continuaremos a analisar a árvore genealógica de Flamula, tentando encontrar outros condes de renome que poderiam ter a posse da Villa e de que forma terá chegado a propriedade da mesma às mãos de Flamula.

Um dos mais importantes presores da Reconquista foi Hermenegildo Guterres. O conde Hermenegildo de Tui foi membro da Cúria Régia e enviado do rei Afonso III para presurar terras que escapavam ao seu domínio, em data posterior à reconquista do Porto, efectuada em 868 pelo já referido Vímara Peres. A relação com o rei era muito próxima, sendo o seu colaborador mais eminente e “conselheiro, parente e amigo do monarca”, que lhe atribuiu o cargo de mordomo-mor, o mais alto da corte1.

Consolidando essa relação, foi ele o enviado para reconquistar Coimbra, presúria efectivada em 878, tornando-se então o primeiro conde de Coimbra, de onde ele eventualmente iniciou uma expansão do seu domínio para terras mais distantes do litoral, como Viseu e Lamego. A hipótese de ser este o conde que deu o nome à Villa foi indicada, entre outros, por D. João de Castro, sendo assim Hermenegildo Guterres adicionado à lista de condes que poderão ter originado a toponímia de Vila do Conde.

1.4 – Hermenegildo Guterres, conde de Tui, Coimbra e Porto

“Flamula, prolis Pelagius et Iberia, era filha de um irmão do Conde Ermenegildo Gonçalves, marido de Mumadona, a fundadora do castelo de Guimarães. Em razão de tal parentesco, assinou com sua irmã Velasqueta, na era de 1006 (ano cristão de 968), o codicilo então feito por Mumadona. Assim como Flamula herdou a “villa de Comite” de seu pai, Pelágio ou Pelaio Gonçalves, recebeu-a este, com idênticos direitos sucessórios, do seu progenitor D. Gonçalo Mendes, mordomo-mor de D. Afonso, o Magno, rei de Leão e Astúrias – guerreiro ilustre e um dos cinco condes que havia então no território que depois constituíu o reino de Portugal. D. Ermenegildo, conde de Tuy e do Porto, era sem dúvida o mais poderoso daqueles semi-soberanos. (…) D. Ermenegildo era cunhado do rei Ordonho I e tio da raínha Elvira, mulher de Ordonho II. Foi de tão nobre, glorioso pai que D. Gonçalo Mendes herdou a “villa de Comite”, depois legada sucessivamente a seu filho Pelágio e a sua neta Flamula, que por fim a alienou da família. Assim se pode concluir, sem nenhum artifício, que só aquele D. Ermegildo, conde de Tuy e do Porto nos últimos decénios do século IX e nos primeiros do século X (personagem que cumpre não confundir com seu neto e homónimo, o marido de Mumadona) podia ter dado a Vila do Conde o nome que a bela guardiã do Ave há mais de um milénio conserva.”
D. João de Castro
O Primeiro de Janeiro, 23/04/1939

D. João de Castro afirma então que o conde Hermenegildo seria bisavô de Flamula. Apesar de ser uma hipótese inovadora para o seu tempo, e seguindo a genealogia que nos parece a mais correcta, a apresentada por José Mattoso2, é compreensível descartar esta conjectura, já que o pai de Flamula não seria Pelagio Gonçalves, mas sim Pelagio Tedones. Esta ideia foi já constatada por Eugénio da Cunha e Freitas, que partilhava anteriormente a hipótese de ter sido o conde Hermenegildo Guterres a dar o nome à Villa, em estudo reproduzido, entre outros, no Boletim Cultural da Câmara Municipal de Vila do Conde, 1ª série, nº 3. Como dissemos, o próprio autor afasta esta sua teoria anos mais tarde.

“Châmoa [Flamula] herdara estes bens de seus pais Pelagio e Ibéria, e estes, como senhores da vila e padroeiros da sua igreja, certamente os tinham das mãos do Conde que lhe deu o nome.
Para averiguar da identidade deste parecia indicado investigar da prógenie de Pelagio e Iberia.
Hipóteses formuladas nesse sentido pelo falecido escritor D. João de Castro e por mim próprio ainda que não longe da verdade, têm de ser afastadas depois do estudo que o Doutor José Matoso em 1970 lhes dedicou n’As Famílias Condais Portucalenses dos séculos X e XI.”
Eugénio de Andrea da Cunha e Freitas
Guimarães e Vila do Conde – I Congresso Histórico de Guimarães e sua Colegiada, Vol.3 (1980)

Para além disso, o referido Pelagio Gonçalves e seu irmão Hermenegildo Gonçalves também têm a sua filiação incorrecta no artigo de D. João de Castro, já que não eram filhos de Gonçalo Mendes, mas sim de Gonçalo Betotes. Também não se identifica que algum Gonçalo Mendes fosse um dos maiores presores da Reconquista. Um relevante Gonçalo Mendes aparece apenas no século seguinte: conde de Portucale, filho de Mumadona Dias e Hermenegildo Gonçalves (e não seu pai, como afirmava D. João de Castro), sendo portanto primo direito de Flamula.

Anos mais tarde, Manuel Laranja apoia a tese de ser este o epónimo de Vila do Conde, no Boletim Cultural da Câmara Municipal de Vila do Conde, 2ª série, nº 9.

“Apresenta-se, porém, com maiores probabilidades Hermenegildo Guterres, avô de S. Rosendo, não só porque desenvolveu acção mais prolongada, mas ainda pelas suas ligações familiares em terras próximas.
(…)
1º – Pela larga influência que Hermenegildo Guterres exerceu na região e que justificaria o facto de ser conhecido apenas por o Conde.
2º – Por seu filho Guterre Mendes ter o palácio em povoação não distante de Vila do Conde.
3º – Pelas ligações da sua família com o Mosteiro de Guimarães, possuidor de propriedades em Vila do Conde e terras próximas.
4º – Por no documento relativo às salinas de Vila do Conde, no ano de 1080, ainda figurar um Guterres e outros nome vulgares na família.”
Manuel A. Reis Laranja
Vila do Conde no século XVI – Boletim Cultural da Câmara Municipal de Vila do Conde nº 9 (1992) p.10

É mais uma opinião fundamentada principalmente no facto de este conde ser um dos mais importantes presores da Reconquista. Ainda assim, e assumindo que o conde teria sido possuidor das terras da actual Vila do Conde, seria difícil que cerca de 70 anos depois estas terras não fossem propriedade de um seu descendente direto.

Como vimos, Flamula não era bisneta de Hermenegildo, como D. João de Castro nos quis fazer acreditar. Mas será que não há relação de parentesco entre Flamula e o conde Hermenegildo Guterres? Há, mas não tão direta. A avó materna de Flamula, Teresa Eriz, era irmã de Ilduara Eriz, nora do conde Hermenegildo. Será que Vila do Conde chegou às mãos de Flamula por via deste conde? É pouco provável, pela afastada relação de parentesco. Por outro lado, é possível que durante alguns anos o conde Hermenegildo tivesse acumulado a chefia dos condados de Tuy, Coimbra e Porto3, este último co-governado por Lucidio Vimaranes, filho de Vímara Peres.

Este extenso domínio territorial exercido por Hermenegildo possibilitar-lhe-ia ter muitas propriedades para distribuir pelos seus herdeiros, podendo a Villa de Comite ter chegado à posse de Flamula, passadas algumas gerações. Não sendo impossível que seja Hermenegildo Guterres o conde que deu nome à Villa, é uma hipótese algo improvável face aos argumentos apresentados e comparando com outros propostos, ascendentes diretos de Flamula, como Afonso Betote ou Vímara Peres.

Na próxima parte, a quarta deste estudo, iremos apresentar um último conde proposto para epónimo de Vila do Conde, mostrando por final a mais plausível árvore genealógica de Flamula e a sua relação com estes condes, iniciando também as buscas por outras teorias para a origem do nome de Vila do Conde.

Toponímia de Vila do Conde (parte 1)
Toponímia de Vila do Conde (parte 2)
Toponímia de Vila do Conde (parte 4)
Toponímia de Vila do Conde (parte 5)

  1. Emílio Saez – Los Ascendientes de San Rosendo (1947) p.13
  2. José Mattoso – As Famílias Condais Portucalenses dos Séculos X e XI (1970) p.13
  3. Fr. Henrique Florez – España Sagrada Tomo XXI (1797) p.8

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