Mapa – século XVI – análise e datação

Sérgio Paiva – 29/Nov/2019

Vila do Conde foi um local de extrema importância para Portugal na época áurea da nação, a da expansão marítima, especialmente devido à arte da construção naval, atividade que suportou o desenvolvimento da localidade durante vários séculos. Apesar disso, as representações visuais de Vila do Conde até finais do século XIX, pelo menos as que chegaram até aos dias de hoje, são escassas.

Anteriormente a essa data, existem pelo menos três mapas de Vila do Conde, de diferentes séculos, os quais aqui serão partilhados, analisados e datados com a maior proximidade possível, começando pelo mais antigo, do século XVI.

Por estranho que possa parecer, este mapa encontra-se do outro lado do Oceano Atlântico, na Biblioteca Nacional do Brasil, no Rio de Janeiro. A explicação é, contudo, relativamente simples.

Este mapa faz parte de uma coleção de documentos, cartográficos e não só, reunidos no século XVIII por Diogo Barbosa Machado, abade da igreja de Santo Adrião de Sever, no concelho de Santa Marta de Penaguião, reputado bibliófilo e autor da Bibliotheca Lusitana. No grande terramoto de 1755, a quase totalidade do acervo da Biblioteca Real, localizada nessa data no torreão poente do Paço da Ribeira1, residência real, foi perdido. Como forma de apoiar o renascimento da Biblioteca, Diogo Barbosa Machado, já em fim de vida e por intermédio de Frei Manuel do Cenáculo Villas Boas, ofereceu a sua grandiosa coleção ao rei D. José I, adicionada ao acervo real antes e depois da sua morte (1770-1773)2. Albergada durante décadas na “Real Barraca“, residência improvisada para a família real, e posteriormente num edifício anexo, a Biblioteca Real seria aberta ao público geral em 1796, instalada no torreão ocidental da Praça do Comércio (Terreiro do Paço)3.

Motivada pela iminente invasão francesa, a corte portuguesa retirou-se para o Brasil em 1807. Entre 1810 e 1811, a Biblioteca Real foi transportada para o Brasil, onde se fundou a futura Biblioteca Nacional do Brasil4, no Rio de Janeiro, com cerca de 60000 livros e documentos anteriormente preservados em Lisboa. Entre estes, incluía-se esta planta de Vila do Conde, a qual não fez a viagem de regresso até Portugal, quando em 1821 D. João VI assim o fez, já depois de ultrapassados os tumultos causados pela Guerra Peninsular. Por esta razão se encontra até hoje este importante documento quinhentista a cerca de 8000 kms de distância do local onde foi realizado, integrado na coleção intitulada “Mappas do Reino de Portugal e suas conquistas collegidos por Diogo Barbosa Machado“.

Os motivos para a realização deste mapa e até mesmo o seu autor são desconhecidos. Sabe-se apenas que a sua dimensão original seria maior, tendo sido perdida a parte sul do mapa5, que incluiria a zona ribeirinha de Vila do Conde, o Mosteiro de Santa Clara, o rio, e talvez a zona ribeirinha de Azurara.

O mapa do século XVI e uma imagem de satélite do mesmo local, nos dias de hoje.

O mapa do século XVI e uma imagem de satélite do mesmo local, nos dias de hoje. Clique numa das imagens e utilize as setas (esquerda/direita) para alternar entre ambas.

 

Este mapa não é inédito nem desconhecido, tendo sido analisado por Rafael Moreira6, Amélia Polónia7, Mário Gonçalves Fernandes8, Eliana de Sousa9, entre outros, e datado por Rafael Moreira entre 1568-1570 e por Amélia Polónia entre as décadas de 50 e 70 desse século. Alguns autores examinaram-no superficialmente, e unicamente pelo facto de este mapa ser idêntico a um outro, de Guimarães10, também proveniente da coleção de Diogo Barbosa Machado. Analisemos também este mapa, incluindo todas as inscrições, tentando obter uma datação mais aproximada e precisa a partir das alterações que sabemos terem sido realizadas no século XVI.

As datas seguidamente realçadas a verde são anteriores à execução desta planta, indicando construções identificáveis na mesma. Analogamente, serão realçadas a vermelho as datas de construções não existentes no mapa, assumindo que o mapa terá sido elaborado antes da edificação das mesmas.

Stª Ctª – a Capela de Santa Catarina já existia em 1518, sendo referida no Tombo Verde do Mosteiro de Santa Clara.

Sima da Villa – este lugar afastado do centro era habitado por lavradores, verificando-se no mapa vários edifícios, de habitação e relacionados com a atividade agrícola. A Rua Cimo de Vila mantém-se com a mesma configuração, embora “cortada” pela Estrada Nacional 13, estendendo-se até à Rua das Mós, das mais antigas de Vila do Conde e também com o seu percurso inalterado.

Rva da Palha – a nascente desta rua seria localizada a casa onde o rei D. Manuel I terá pernoitado aquando da sua passagem por Vila do Conde durante a peregrinação a Santiago de Compostela, em 1502. Nesse tempo seria posse de Jerónimo Rodrigues e Graça Dias, futuramente propriedade dos Villas Boas de Airó, morgados de Santa Luzia. Atualmente é o troço norte da Rua Comendador António Fernandes da Costa.

Rva do Poço – hoje resta apenas um pequeno troço da entrada nordeste, um beco sem saída de poucos metros que termina numa garagem.

Praça Velha – note-se a representação de um pelourinho na Praça Velha. Não se sabendo a data da sua demolição, é certo que este pelourinho e o da Praça Nova coexistiram durante anos. Em 1540 encontra-se nas actas de vereação um pedido para a retirada do “pelourinho velho por quanto não era bom haver dois pelourinhos na vila, pois não os há em nenhuma cidade nem vila do reino”. A representação do pelourinho antigo pode ter duas interpretações. Poderá apenas simbolizar o antigo centro político da vila, muito depois da sua demolição, ou poderá significar que o pelourinho da Praça Velha por aí permaneceu durante décadas, até à data da execução desta planta. No sul e nascente desta praça podemos identificar o que deveriam ser os edifícios utilizados como Paços do Concelho em épocas distintas11.

Rva de Dinis Pinto – corresponde atualmente à Rua Camilo Castelo Branco, ligando a Praça Velha à Rua Fonte do Serralheiro.

Rva dos Mata Setes – não se sabendo a origem deste topónimo, é atualmente a Rua General Lemos, depois de ser alvo de várias mudanças de nome ao longo dos séculos (Rua do Barroso, Rua da Alegria, Rua Tenente Valadim…).

Rva de S. Sebastiao – a Capela de São Sebastião encontrava-se no Largo do mesmo nome. Foi transladada para o cemitério municipal em 1853 devido à abertura da Estrada Real.

Campo da Choqva – o Campo da Choca estendia-se para sul do local onde se encontra esta inscrição no mapa, onde mais tarde se construiu o novo (e atual) cemitério municipal. O seu nome deriva de um jogo semelhante ao hóquei em campo. Para a progressão da “bola” (de pedra ou madeira) os jogadores utilizavam um pau curvo, ou aléu, nome que com a ajuda de uma lenda ainda hoje se encontra no brasão de Vila Real12.

Fonte da Vila – já existente no século XI e desmantelada em 186413.

S. Amaro – a Capela de Santo Amaro já teria sido construída, embora com dimensões muito reduzidas. Não se sabe a data exata da sua construção, algures entre 1518 e 1571, provavelmente mais próxima da segunda data.

O. Ovteiro – a Capela de Santa Luzia, cuja construção foi iniciada em 1502 aquando da passagem de D. Manuel por Vila do Conde, já estaria edificada. O outeiro referido neste mapa, defronte da capela com frontaria voltada a norte, subsistiria até ao final do século XIX. Nas traseiras da capela existia uma escadaria, subindo de poente para nascente, para uma viela, mais tarde denominada Rua do Outeiro14 e Travessa de Santa Luzia, outeiro esse que pela toponímia observada neste mapa se prolongaria para o adro da capela.

Rva da Ivdiaria – a Rua da Judiaria terá adquirido o seu topónimo pela existência de um bairro judeu, que à data da execução deste mapa já não existiria. Os judeus foram obrigados a optar entre a conversão ou o desterro em 1497, por decreto do rei D. Manuel I15. Esta rua tornar-se-ia uma viela sem nome, “encaixada” entre os quintais dos solares dos Villas Boas e dos Carneiro Pizarro, dando origem já em pleno século XX à Rua Conde D. Mendo16.

Rva da Misericordia – por esta altura, a Rua da Misericórdia seria a parte sul da atual Rua Comendador António Fernandes da Costa, passando ao lado poente da Capela de Santa Luzia.

Mia – no Largo da Misericórdia, a primitiva Igreja já estaria completa (1536), sendo mais tarde ampliada (1599). Ao seu lado, a sul, ainda não existia a Rua de Nossa Senhora da Conceição (1577). No lugar do cruzeiro da Misericórdia, construído em 1585, existiam edifícios representados neste mapa, foreiros ao Mosteiro de Santa Clara17.

Rva da Cadea – a parte sul/sudoeste da atual Rua da Costa teve em tempos uma cadeia, no local onde se encontra a casa dos Carneiro Pizarro / Pizarro Monteiro. Este antigo solar, hoje em ruínas, foi conhecido, entre vários outros nomes, por “Casa da Cadeia Velha”, tal como este troço da Rua da Costa. Primeiramente Rua da Cadeia e posteriormente Rua da Cadeia Velha18.

Rva dos Marinheiros – este é um erro que se encontra no mapa, já que toda a documentação quinhentista relativa a esta rua a denomina de Rua dos Mourilheiros, e não Marinheiros. Sobre a origem do seu nome, há duas versões: tal como a Rua da Judiaria, o topónimo poderia advir de um bairro de uma minoria religiosa onde os mouros seriam obrigados por lei a residir19. Outra versão aponta para a existência de reservatórios utilizados para a salmoura (moura), sendo os trabalhadores que exerciam esse ofício de conservação de alimentos apelidados de “mourilheiros”20.

Praça – a Praça Nova, atualmente Praça Vasco da Gama. A nova Câmara Municipal, construída entre 1538 e 1543, já estaria concluída, tal como o novo pelourinho.

Rva da Laie – a Rua da Laje deveria ser uma das poucas vias pavimentadas, podendo daí advir o seu topónimo. Corresponde à metade norte da Rua da Igreja.

Rva da Crvs – a Rua da Cruz seria a parte sul da Rua da Igreja, desembocando no Largo do Senhor da Cruz (Largo dos Artistas), onde existia um oratório com essa imagem.

S. Joane – a Igreja de São João Baptista, a Matriz quase tal como a conhecemos, notando-se apenas a ausência da torre sineira (de finais do século XVI / inícios do século XVII) e do anexo correspondente ao Museu de Arte Sacra, construído séculos mais tarde. É de referir a imensa ajuda que a sua pormenorizada representação entrega à datação deste mapa, pela existência de ambas as capelas do transepto, assim como a nova sacristia. A capela mais antiga, dedicada a Nossa Senhora da Boa Viagem data de 1542. Em 1561 foi construída a Capela de São Miguel o Anjo no local da antiga sacristia, deslocando-se esta para o local onde se encontra até aos dias de hoje21

Rva da Senra – talvez a mais extensa de toda a vila nesta época, ligava o Largo da Misericórdia à zona ribeirinha. Hoje “cortada” pelo Largo Guilherme Gomes Fernandes e renomeada, a sul, Rua Rancho da Praça e Rua Dr. Elias de Aguiar.

Rva Direita – a Capela de São Bento também ainda não tinha sido construída, sendo erigida no século seguinte (1616). A Rua Direita adquiriria nesse século o nome do padroeiro da capela que ainda hoje existe.

Ortas de Fr.co Carn.ro – a extensa propriedade agrícola de Francisco Carneiro, juiz de fora em Sintra em 157122.

Hortas – hortas particulares nos terrenos das traseiras da Matriz, tal como hoje em cota inferior (local da feira semanal).

Fonte das Donas – ainda inacabada em 154723.

S. Francisco – a Igreja de São Francisco (1522) já existia, ainda sem as capelas laterais, a primeira das quais construída em 1566 por ordem de Catarina Pereira e Estevão d’Eça, da Casa de Cavaleiros em Outeiro Maior.

Pitipé de Cem Braças – a escala utilizada para a execução deste mapa.

É de notar ainda a ausência da Capela de São Roque, construída em 1580.

Com estes dados, a execução deste mapa pode ser datada entre os anos de 1561 e 1566. A baliza temporal inferior é proveniente da existência da Capela de São Miguel e nova sacristia na Igreja Matriz. A baliza temporal superior provém da inexistência das capelas na Igreja de São Francisco. Todos as outras informações desta planta confirmam estas datas, pela existência de edifícios anteriores a 1561 e inexistência de edifícios posteriores a 1566.

Pode visualizar aqui o mapa de Vila do Conde do século XVI em alta resolução.

  1. Blogue da História e Estórias – Alguns aspectos da Biblioteca Real de D. João V (1707 – 1710)
  2. Rodrigo Bentes Monteiro – Reis, Príncipes e Varões Insígnes na Coleção Barbosa Machado – Anais de História de Além-Mar nº 6 (2005) p.216
  3. Biblioteca Nacional de Portugal – História
  4. Mundo Educação – Fundação da Real Biblioteca
  5. Amélia Polónia – Vila do Conde – Um Porto Nortenho na Expansão Marítima Quinhentista – Vol. 1 (1999) p.723
  6. Rafael Moreira – Os grandes sistemas fortificados (1994)
  7. Amélia Polónia – Vila do Conde – Um Porto Nortenho na Expansão Marítima Quinhentista (1999)
  8. Mário Gonçalves Fernandes – As plantas De Guimarães e De Vila do Conde, da Biblioteca Nacional do Brasil (2009)
  9. Eliana de Sousa – Vila do Conde no início da Época Moderna – Construção de uma nova centralidade (2013)
  10. Planta de Guimarães do século XVI na Biblioteca Nacional do Brasil
  11. Eliana de Sousa – Vila do Conde no início da Época Moderna – Construção de uma nova centralidade (2013) p.73
  12. Ciberdúvidas da Língua Portuguesa – O Significado da Palavra Aléu
  13. Commercio de Villa do Conde nº 58 – 29 de Dezembro de 1907
  14. Vila do Conde Quinhentista – evolução urbana (interessante sub-site, infelizmente construído em Flash)
  15. Maria José Oliveira – O dia em que os judeus foram expulsos de Portugal (observador.pt)
  16. Horácio Marçal – Caderno de cultura do Jornal de Vila do Conde – nº 18 (4 de Outubro de 1979)
  17. Santa Casa da Misericórdia – Um Legado -1510-1975 – I Volume (2013) p.30
  18. Sara Raquel Maciel da Silva – Os Vasconcelos de Vila do Conde (2016) p.123
  19. Horácio Marçal – Caderno de cultura do Jornal de Vila do Conde – nº 18 (4 de Outubro de 1979)
  20. Carlos Ouvidor da Costa – Caderno de Cultura do Jornal de Vila do Conde, 1987, nº 383
  21. Marisa Costa – Boletim Cultural da Câmara Municipal de Vila do Conde, Nova Série – nº 13 (1994) p.42
  22. Amélia Polónia – Vila do Conde – Um Porto Nortenho na Expansão Marítima Quinhentista – Vol. 1 (1999) p.723
  23. Amélia Polónia – Vila do Conde – Um Porto Nortenho na Expansão Marítima Quinhentista – Vol. 1 (1999) p.717
COMPARTILHAR
Artigo anteriorFoto panorâmica anterior a 1885

Deixe um comentário

avatar
  Subscribe  
Notify of